O desafio de amar a si mesma em uma sociedade que exige sua perfeição

Por Deise Duarte

Esse post é sobre um amontoado de sentimentos e pensamentos e sobre coisas que eu devia ter escrito faz muito tempo.

Se você não gosta de gente gorda, de gente feia, de gente que não sabe “de que gente é” e acha que tudo é mimimi porque as pessoas têm direito a ter sua opinião, pule esse texto. Ele vai te fazer me achar idiota.

É provável que não haja coerência nenhuma nas palavras a seguir e já peço desculpas por isso. Mas, eu preciso falar.

Eu me odeio cada vez que…

Cada vez que eu quero comprar uma roupa eu me odeio.
Cada vez que eu entro em um ônibus e meu quadril fica preso na catraca, eu me odeio.
Cada vez que eu ouço uma garota magra reclamando do seu corpo, eu me odeio.
Cada vez que ouço alguém dizendo que gordos são preguiçosos e nojentos, eu me odeio.

Porém eu aprendi que esse é o meu corpo. E ele funciona plenamente. Ele me dá prazer. Ele gerou dois filhos lindos. Ele é colo, é abraço e é macio.

Não posso passar a vida ouvindo vocês dizendo que meu corpo não é igual ao da modelo, mas eu ouço diariamente. Porque todo mundo espera que sejamos como aquela capa. Mas, eu sigo viva porque um corpo é um corpo. E esse é o meu.

Um trabalho de anos…

citação oscar wilde

Durante anos eu odiei meu cabelo. Porque vocês me diziam que ele tinha que ser liso e loiro. Durante anos o meu cabelo não foi o suficiente e eu fiz de tudo pra muda-lo.

O processo de olhar para o meu cabelo e entender que ele era o mais bonito que podia e que a gente podia viver em paz foi lento.

E a verdade é que eu sempre peço secretamente pra que ele não me decepcione. Imagine o quanto ele se decepciona com isso?

Eu odeio a minha pele vermelha (e doente!).
Odeio o tamanho do meu pé.
Odeio os pelos do meu corpo.

São tantas as coisas feitas pra amar e que eu odeio porque elas não são o suficiente

Mas eu amo as pessoas. E quando amo as pessoas eu não as amo porque vieram em uma caixa com um selo de perfeição. Eu amo porque elas existem, porque elas são. E diariamente eu luto pra ser.

Quando nós exigimos de alguém que tenha uma aparência impecável sob a pena de virar chacota, estamos reproduzindo uma opressão. E eu sei que há vítimas também do outro lado.

Mas, sim, me chateou ser motivo de piada da “miga” que é viciada em dentista, mas não aprendeu muita coisa sobre sorrisos.

Eu me magoei porque as pessoas nem imaginam o quanto a gente batalha pra amar o que a gente é, pra aceitar trazer pra mesa tudo o que a gente tem.

Me doeu porque meu sorriso é imenso, mesmo com dentes curtos. O meu sorriso é do tamanho da minha história e ele merece respeito.

Em tempo: tem uma pessoa na outra ponta da sua piadinha feita na internet.

Você é responsável pelo sofrimento de muita gente quando exige perfeição de seres humanos que só querem sobreviver. Assim como você.

Leia também: Não é justo odiar o próprio corpo

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