Sobre uma noite de ano novo em casa

Olá, ano novo! Eu sussurrei quando o ponteiro do relógio velho e barulhento da sala, anunciou a chegada. Lá fora o som de fogos de artifício, buzinas e risadas atestaram: mais trezentos e sessenta e cinco dias que nos foram presenteados. Enquanto isso, ignorando o alarde das ruas, na minha casa, eu estava com uma taça de vinho, camiseta confortável e algumas lágrimas salpicando a roupa não branca que usava. Desafiando todos os limites da crença popular.

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Não pularia sete ondas, não me vestiria pedindo paz, não festejaria com amigos e família. Havia recusado alguns bons convites e para outros sequer fora chamada. Indiferente. Por fim escolhi a quietude das minhas pernas dobradas, sobre o sofá cheio de almofadas, cheirando a amaciante.

Não que eu não estivesse agradecida pelo tempo que havia passado. Pelo contrário, entrei no último ano com uma dor enorme no peito e comemorei aliviada sua chegada nas ruas francesas da cidade luz, implorando por respostas do ano que chegou para todas as questões do ano que passou. Não as recebi, ao menos não todas.

No ano que passou

Ano novo

No ano que passou tive de lidar com o pânico, com o medo, com a ansiedade paralisando a mente e cada centímetro de corpo. Fui forçada a conviver com o cérebro me traindo e saindo do controle e tive de secar lágrimas que sequer escorriam pela face, pois eram internas. O rosto intacto escondeu bem o coração que chorava.

Mas não fiz isso sozinha. Repousei a cabeça em abraços amigos, gargalhei com boas piadas e meus olhos fotografaram tantas paisagens almejadas que seria egoísta apenas reclamar. Recebi amor e amizade de todos os lados, mesmo quando não mereci e por isso, por essas pessoas e momentos, sou imensamente grata.

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Aprendi, no ano que passou, a respirar com calma e sentir o ar preenchendo os pulmões. Voltei a dormir no escuro e a tomar café da manhã com minha família. Dancei, com a alma entregue, até o sol raiar e os pés doerem. Cantei alto e sem me dar ao trabalho de atentar para a etiqueta do silêncio. Me permiti. Me permiti alguns porres, alguns romances etílicos, alguns romances honestos. Acima de tudo, me permiti alcançar.

Sobre o ano novo

ano novo em paris

Não foi um ano fácil, mas foi o meu ano. De um jeito ou de outro. E agora, sozinha na sala, ouvindo a algazarra feliz dos que, como eu, agarram-se a esperança do recomeço, novamente chorei agradecida. O ano novo não está me trazendo a oportunidade de um novo roteiro, tampouco é uma folha em branco. Não, não… Tenho de continuar exatamente de onde parei.

Mas, com toda a certeza, posso abrir um novo capítulo, posso iniciar um outro parágrafo e é isso o que me acalma. Minha nova história, apesar de antiga, é tão bela justamente porque posso reiniciar de onde quero. Basta colocar no lugar correto meu ponto final. E eu coloquei.

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