Batom vermelho

O cigarro queimou entre meus dedos, sem que o fumasse. Estática, pálida e só. Você bateu a porta e foi embora.

Levou suas roupas amassadas dentro da nossa mala de viagem. Nunca imaginei que ela serviria algum dia pra te levar embora.

Da janela pude te ver ligar o carro e sair rápido. Parecia fugir de algo monstruoso, não de algo que foi por um tempo, sua segurança.

Não sei o que fomos, mas sei que em algum momento da história fomos amantes e amigos leais. Haviam lacunas entre nós e acho que afundamos nelas. A história foi junto com você.

Não sei pra onde foi, pra quem foi. Sei que se foi de mim.
Ficaram algumas coisas suas espalhadas pela casa e eu, nem quis chorar.
Ficou bagunçado e senti falta de alguns livros.

Não senti sua falta nos primeiros dias e sério, não chorei. Arrumei o espaço e me arrumei. Me olhei e pude me sentir bonita sem ti.

Passei batom vermelho, vesti aquela blusa preta e o velho jeans rasgado. E voltei a ser eu mesma. Me enxerguei sem você e gostei do que vi. E isso nem quer dizer que eu te ame menos, só não sinto mais.

Estávamos feios, acostumados com nós e isso não foi bom, melhor te deixar ir. Te ver partir. Não houve nenhuma briga ou conversa. Você disse que precisava ir. E foi. Eu fiquei comigo e com tudo o que você deixou pela casa e por minhas memórias.

Espero te ver passar feliz. Espero terminar meu livro e me sentir feliz.
Espero que vá às consultas médicas que sempre marca e não comparece.
Espero ir ao dentista e fazer meu exame de sangue, cuidar da anemia.

Espero que lembre de ligar pra sua mãe e comprar aquelas flores que ela gosta muito.
Espero que se forme no curso que sempre sonhou fazer.
Espero visitar mais meu pai.

Espero que possamos nos ver, sem correr, sem bater a porta. Passar um café e fumar um cigarro, falar dos lançamentos de livros, filmes e séries. Escutar uma música e falar onde nos perdemos.

Espero de novo, ainda dividir um dia com você, alguma besteira, um doce, uma cerveja artesanal.

Espero sim, que possamos falar de nós sem mágoas, sem dor porque foi bonito.

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Liliane Maria Inácia. Amante de café, frio, livros, filmes dramáticos e fotos reveladas. Associo músicas a momentos e escrevo sobre todas as coisas que me (ins)piram.