Movimentos sociais

“Nós vivemos em uma geração de mimimi”, falou o privilegiado

não mimimi

“Nós vivemos em uma geração de mimimi”, falou o privilegiado.

Por Mayra Lima

Como é fácil viver no topo da cadeia alimentar. Viver de forma segura, com acesso à educação, sem ouvir piadinhas pela sua cor, gênero, ou qualquer escolha que você venha a ter por meio de seus próprios anseios. Como é bom andar na madruga por aí, sem ter medo de estupro, sem ter medo de ser revistado pela polícia. Como é bom viver em uma comunidade que não é palco de troca de tiros, de invasões, de destruição. “Mas não não, quer saber? Nós vivemos em uma geração cheia de mimimi”, falou o privilegiado.

Eles reclamando das feministas, da luta trans, das escolhas diferenciadas daqueles de cabeça aberta. Vitimizam o movimento negro, vitimizam a diferença salarial. Querem tomar a terra dos indígenas e o pouco que eles ainda têm, querem vulgarizar mulheres que apenas estão se divertindo. Eu sei que você se incomoda com tudo isso, mas é exatamente esse o meu objetivo.

Se só com esses dois parágrafos você já riu alguma vez, revirou os olhos, ou pensou “que besteira”, é com você mesmo que eu quero falar. É meio óbvio que você vai ficar incomodado com esses fatos. Eles balançam o seu “lugar de direito”, então refletir sobre isso está totalmente fora de questão. “Time que está ganhando não se meche, né?”, o problema é que nesse time só existem jogadores do seu tipo.

“Mas nem todos são assim”

homem pensando sobre mimimi

Enquanto pra você o problema é “nem todos nós somos assim”, tem negro sendo dispensado em entrevista de emprego, tem mulher apanhando do marido, tem transexual sendo atacado até a morte. Será que ainda vale a pena você seguir nesse pensamento mesquinho? Ou abrir a mente para entender o que realmente está acontecendo no mundo?

Eu acredito que na maioria das vezes é essa ousadia de ser quem se é que te falta, o que causa inveja ao se deparar com tanta coragem. Coragem sim, porque viver nesse mundo sem estar no mesmo “patamar” que o seu é extremamente complicado. Eu corro o risco do julgamento todos os dias, só por ser mulher. Ele corre esse risco só por ser gay, o outro corre esse risco por conta do tom da pele, olha que absurdo. São tantas e tantas amarras, tantos moldes e caixinhas.

O amor já é livre pra ele, homem, branco, cis de classe média. Pra que então se preocupar com a liberdade de amor dos outros? Ele pode andar de mão dadas com a sua parceira por aí, pode beijar ela independente de quem esteja olhando, então foda-se né mores? Eles não querem ter dor nos olhos ao ver um casal homo se beijando, já que isso é promiscuidade. “Ah eu não sou contra, tenho até amigos gays, mas pra que ficar se beijando no meio da rua e andando de mão dada, isso aí já é falta de respeito”, falou o privilegiado.

Por favor, quando terminar esse texto, leia também a “Carta aberta a um homofóbico”.

Você pode ser privilegiado, sem ser vilão

tomando uma decisão

Não tem problema algum de você fazer parte de uma pequena parcela da sociedade que tem privilégios, o problema só começa a partir do momento que você desvaloriza a luta daqueles que querem ter os mesmos direitos que você tem. O que não é nada demais, já que em nossa essência somos todos seres humanos.

Ser privilegiado não significa que você é culpado pelos crimes de uma sociedade etilista e intolerante, claro que não. Mas significa que você tem um papel importante em ajudar a outra parcela que depende da abertura de visão de mundo entre pessoas como você, que acreditam ser superiores apenas pode ser um “padrãozinho”.

Escutar é o primeiro passo pra você entender de vez o que ocorre fora além do muro de proteção que te cerca desde que você nasceu. Se a luta não é sua se cale, não subestime, ao menos apoie. É extremamente perceptível o alto da pirâmide em que você se encontra, isso não te incomoda nem um pouco?

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