Degustação | 
#2

Nós dançávamos. Éramos como instrumentos afinados de uma orquestra sinfônica, guiados pela maestria pretensiosa de nossos próprios prazeres. Os minutos abraçavam as horas, na vontade de trazer o sol pra presenciar o nosso show. Sem pudores nem regras alcançávamos das mais graves às agudas notas. Em busca da saciedade energizávamos o ambiente, e se sem nem perceber fazíamos o quarto queimar.

O mundo lá fora já não me dizia mais respeito. Eu mal acreditava que ele existia, que depois daquela porta a vida pairava nos braços de uma realidade inegável. Mas era com o testemunho da chuva que a noite girava, me transportando em círculos, como um carrossel cheio de cores e luzes envolventes. Elas me embriagavam com a descoberta de novas sensações, que me deixavam em um estado instintivo, quase que inconsciente.

Cada pontinho marrom eram como montanhas gigantes em meio a grama verde daqueles olhos sem fim. Eles me engoliam como um gole de vinho doce, suave, me fazendo efervescer e mergulhar em um mar cheio de sabor. E por mais que eu ouvisse o vento forte lá fora e fechasse os olhos eu sentia ele me observar, por mais que eu me deixasse levar ele me ancorava, mostrando que aquela sensação era real e que eu poderia tê-la com ele o quando eu quisesse.

As respirações combinavam, em um ritmo simétrico e caloroso. Foi quando as áureas esfomeadas fundiram em um caminho sem volta, harmonizadas pelo mesmo vício, pelas mesmas vontades. Em um estampido tendencioso encontrávamos a calmaria, que nos rodeava na ambição de reiniciar. Agora é engraçado lembrar, naquela época eu não sabia, mas eu havia encontrado aquele que iria desconstruir minhas verdades enraizadas sobre o que era o amor.

Esse texto faz parte da série Morada, que traz a história da construção de um relacionamento de três anos. O conto será composto pelas fases mais marcantes, desde os seus primeiros passos.
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E entre sons e cores me transbordo em existir. Me apaixono pelo que sinto, sem medo me entrego a vida. Falo muito, rio alto, quero sempre mais música, mais magia, mais seriados. Me distribuo entre o amor pela fotografia e pelos meus livros. Uma Jornalista em constante mutação, sem medo do mundo e com sede de aprendizado.