Desconcerto | #5

Ele me olhava de longe, a vontade que eu tinha era de me render e me jogar naqueles braços que se encaixavam perfeitamente em mim. Mas eu tava certa, eu tinha que segurar minha convicção, pelo menos era assim que eu acreditava que deveria ser. Foi quando ele chegou de mansinho, com calma e cheio de questionamentos que me faziam duvidar da minha própria certeza. Nesse momento eu não sabia se sentia raiva pelo argumento convincente que ele trazia ou prazer em aceitar o desafio de contestar aquelas ideias tão sólidas.

Eu não sabia o que era, mas alguma coisa nele que fazia pensar além. Logo eu, que sempre fui tão acostumada em viver entre as minhas evidências incontestáveis, que sempre achei tão fácil convencer alguém por meio das minhas palavras. Com ele não foi tão fácil, e ainda não é.

Me senti desafiada, ele atirava o raciocínio dele com uma maestria impressionante, mas o jogo seguia empatado. Meus fundamentos também deixavam os pensamentos dele carregados de incertezas, isso era certo. Eu tentava manter a compostura, tentava não levantar a voz, mas a agitação do momento me tirava do sério: como ele conseguia fazer aquilo?

E no auge daquele debate que parecia não ter fim ele me fez rir, ele realmente conseguiu me fazer rir. Aquilo me desconcertou, e foi com a guarda baixa que consegui solucionar nossa pendência. O batimento cardíaco desacelerou e as mãos estavam cada vez mais próximas, eu já podia respirar.

Aquilo foi diferente de tudo que eu já havia passado. Aceitar uma ideia tão oposta e tão cheia de verdade não é tarefa fácil. Mas a dificuldade perdeu força quando aquele sorriso me fez pausar por uns segundos, ele me envolveu e me pediu calma, foi quando eu consegui relaxar.

Então chegamos a um consenso, ao meio termo, encontramos o equilíbrio e resolvemos nossas desavenças. Até hoje essa dança é necessária, somos tão diferentes e isso é encantador, mas quão difícil é discutir com alguém que, além de conhecer teus pontos fracos, é tão cheio de contextos carregados de fortes argumentos quanto você? A dificuldade existe, mas ela precisa ser quebrada. Só assim conseguimos dar um espaço maior pro amor.


Esse texto faz parte da série Morada, que traz a história da construção de um relacionamento de três anos. O conto será composto pelas fases mais marcantes, desde os seus primeiros passos.

Perdeu algum texto da série? Clique nos links abaixo e acompanhe!
Match | #1
Degustação | #2
Vício | #3
Fascínio | #4

Deixe seu comentário

Deixe seu comentário

COMPARTILHAR
Artigo anteriorSentimento a gente não escolhe
Próximo artigoFaz quase um ano que nos desconhecemos
E entre sons e cores me transbordo em existir. Me apaixono pelo que sinto, sem medo me entrego a vida. Falo muito, rio alto, quero sempre mais música, mais magia, mais seriados. Me distribuo entre o amor pela fotografia e pelos meus livros. Uma Jornalista em constante mutação, sem medo do mundo e com sede de aprendizado.