Desista de mim

Telefone tocou alto e estridente, acordando meu quarto numa manhã quente de verão. Eu tirei a máscara de dormir, destapei só um olho na verdade e vi que era você. O estômago revirou, suspirei pra conter a náusea, protegi os olhos novamente, abracei o travesseiro e não respondi.

Eu imagino que esse seu papo deva funcionar com alguém. Ou você não insistiria tanto nele. Mas, meu bem, suas frases feitas não seduzem nem meu dedo mindinho.

Não é pretensão, lamento se você entende dessa forma, eu não estou te evitando por me sentir boa ou ruim demais, entenda, é o seu discurso vazio que me cansa. Seus elogios tão facilmente ditos, tão rasos, me desanimam e soterram de tédio qualquer papo entre nós.

Eu realmente não ligo se você me acha uma bruxa ou princesa.

Sua opinião não me importa, bem como seus músculos ou seu carro potente, os quais você trata como continuação da sua masculinidade.

Nem estou te pedindo para ser um desses intelectuais arrogantes, que seguram a xícara com a ponta dos dedos enquanto desenrolam algum tema, sob uma ótica egocêntrica e cansativa. Não, não…

Se quiser conversar, de verdade, me fale de você, do que você vê no mundo, do gosto da chuva, de uma tarde de praia, do seus pratos favoritos e do último filme que você viu. Me conte do seu chefe maluco, do seu tio bêbado, dos seus sonhos secretos e da impressão que você carrega da vida.

Apenas pare de repetir esses clichês monótonos que você usa nas baladas. Saia desse papel de galã e desempenhe algo mais real e sólido. Eu não sou sua caça, não quero ser sua conquista e você está longe de ser um caçador vestindo sua camisa de grife, provavelmente parcelada no cartão.

Desista de mim.

Desista de me colocar entre seus feitos heroicos, de me tornar seu troféu ou um número na sua lista. Eu não estou disponível para você. Eu não quero que você segure minha cintura no meio de uma festa, apenas porque nos conhecemos de algum lugar.

Muito menos que tente me beijar a força. Não estou ali para servi-lo e não vou me sentir sortuda por ganhar seu beijo. Sua popularidade não me excita, nenhum um pouco. E meu não é não! Entenda isso e pare de me encarar como um desafio pessoal.

Eu realmente quero ficar sozinha na minha mesa, tomando meu vinho e lendo meu livro. Eu realmente quero correr sozinha pelo parque olhando as cores do sol manchando o céu no finzinho da tarde. Eu realmente prefiro minha música alta nos fones aos seus galanteios absurdos, retirados de conversas fúteis e narcisista.

Então, por favor, concentre suas energias em alguma dessas garotas que morreriam por você, sem nenhum motivo aparente, essas para as quais você paga drinks e compra camarotes em festas com música de quinta. Não funciona comigo, acredite, pago minha bebida e ainda faço amizade com o garçom, não preciso de você.

Admita que eu não sou uma delas. Que seu perfume importado não me inebria. Que seu cabelo montado com pomada francesa me parece oleoso e que seu estilo de vida nada tem a ver com o meu. Não percamos nosso tempo um com o outro, porque isso é visível, não rola. Então me deixa quietinha no meu canto, me deixa com meu “Gabo” e meu “Chico”, me erra com essa sua auto-estima de butique e me deixa dormir. Obrigada.

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