Eu desisti de você

Eu desisti de você

Eu desisti de você. Eu nem acredito: desisti de você. Antes de desistir de você, minutos antes, talvez uns quinze minutos antes, não mais do que isso, eu fui ao banheiro daquele bar, me olhei no espelho e quis chorar. Eu quis chorar, de medo. Medo de nunca desistir de você. Medo de permitir que você fizesse o que quiser de mim, e eu continuar ali, disposta a te esperar.

De frente para o espelho, encostei meu corpo na parede, de forma que conseguia me ver inteira. Inteira só de corpo, de alma, eu estava em pedaços. Fechei meus olhos e todas as suas mentiras me invadiram como um tapa na cara. Suas meias respostas, seus sorrisos disfarçados e suas pausas pensativas antes de responder às minhas perguntas.

Eu finalmente tomei uma decisão

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Respirei fundo, lavei as mãos e saí daquele banheiro. Sentei com meus amigos, pedi mais um chopp e desisti de você. Aliás, naquela noite, eu não desisti de você, eu insisti pela última vez em você. Eu tinha te procurado, tentei te convencer, nem eu sei de que. Eu te mandei mensagens, num tom de saudade. Mas você estava muito ocupado, para não novidade da história. A história em que eu era roubada da minha vida.

A sua indiferença foi me esmagando, até que me deixou pequena. As suas mentiras foram apagando meu sorriso, até que ele ficou cinza. O seu jeito frio foi me paralisando, até que me vi num torpor. A sua insistência em brincar com os meus sentimentos foi tanta, que comecei a me achar uma criança – infantil e mimada – por te querer a todo custo. Esmagada, de sorriso apagado, paralisada e sentindo-me infantil e burra, percebi que a sua presença me ausentava de mim.

Apaixonada, eu não entendia porque estar perto de você era tão dolorido quanto estar longe.

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Eu não percebia que sem você eu sofria a sua falta, mas com você eu sofria a minha falta. A falta da mulher forte e corajosa que sempre fora. A falta da mulher inteligente e audaciosa. A mulher sorridente e espontânea, que não tinha medo de ser, de ser a única forma que poderia ser, ainda que fosse mal formada ou sem forma alguma.

Ainda que esse ser não fosse o ser esperado pelo outro. Ao seu lado, eu troquei a minha genuína bagunça pela sua falsa organização. Por acreditar que o que vinha de você era melhor do que vinha de mim. Porque afinal, você era incrível e eu só uma mulher pacata e sem graça.

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Hoje eu acordei com a cabeça tonta de ressaca e de angústia. Ressaca não do chopp, mas de ti. Angustia não de ter desistido de você, mas de pensar que eu poderia nunca ter desistido. Isso me assusta.

Deixei que você ficasse tanto tempo na minha vida, e poderia ter deixado mais, se não fosse aquela desistência súbita que me invadiu quase que tarde. Mas, invadiu. Sorte, acaso ou Deus, tanto faz. Invasão benéfica.

Abri os olhos e notei que você quase que me roubou a doçura que eu havia levado muito tempo para acrescentar em mim.

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Acordei e senti um pouco de repulsa da mulher que eu quase me tornei: primeiro, aquela que tenta provar para um homem que ela vale a pena; depois, aquela que beija outro homem não porque queria, mas sim, só por beijar, só para esquecer um outro beijo. Porque sim, eu me dei o trabalho de beijar outro homem no presente momento que eu desisti de você.

Como que num milagre, ou não, talvez fosse só o ciclo natural das coisas, mas me pareceu milagre. Eu vi Deus no seu adeus. Graças ao ciclo perfeito do universo, eu desisti de você antes de desistir da minha maturidade, da minha feminilidade, do meu amor próprio, da minha felicidade e dos meus dias bem vividos.

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Só pode ser coisa dos astros tal inquietação a essa desorganização que me invade e me faz ser tudo aquilo que devo ser, mesmo quando não quero ser. Tal desorganização que afasta tudo que me organiza fora de mim, tudo que me separa do eu que me foi destinado. Algo, que só pode vir dos céus, me liberta em um milhão de “eus” e me bota para viver a minha essência, ainda que eu, enganada, queira viver essências alheias.

Ás vezes eu me perco. Mas a vida se sacode inteira, me arrasta e me coloca no eixo. Desorientada na minha orientação, cansei de te viver. E agora que desisti de você, posso voltar a insistir em mim. Vou tirar essa manhã para limpar as minhas gavetas. E mais tarde, enchê-las de papel rabiscado com meu nome, apenas meu nome.

Agora que desisti de você, vou fazer questão de me lembrar de você como meu ex – meu (ex)emplo de gente que eu devo desistir.

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