Eu fui estuprada, eu fui abusada

Não foi uma vez, não foram duas vezes, foram 12 anos! Sim, doze anos passando por isso. Doze anos sem saber o que sentir. Doze anos sem saber o que pensar.

Se eu falei para alguém? Jamais. Tinha que falar? Ninguém me disse nada, ao contrário, eu tinha um segredo totalmente incrível. Era só isso que eu sabia.

Eu não sabia o que tava acontecendo. Eu não sabia que aquilo que eu fazia era sexo. Eu pensava ser normal, pra mim, tudo aquilo era carinho, uma brincadeira. Eu pensava que tinha que aprender tudo aquilo para quando eu crescer.

Tudo isso aconteceu e não foi por um desconhecido. Não foi com violência. Não fui obrigada a nada. Eu fui abusada pelo meu próprio avô. Na minha própria casa.

Eu achava aquilo normal. Eu não sentia dores. Eu não chorava e nem ficava triste. Muito pelo contrário, eu achava aquilo bom. Tudo isso era gostoso, mas eu não sabia o que era, como se chamava aquilo.

Você consegue imaginar o que é pra uma criança gozar? Um criança que mal conhece seu corpo (que corpo? Eu ainda não tinha um “corpo”) sentir sensações extremas de prazer? SIM, ERA BOM!

Você pode perguntar se morando com muitas pessoas ninguém reparou. Se meus pais não viram, meus tios, minha avó, meus primos. Te respondo: Ninguém reparou. Ninguém nunca reparou.

Pra todos era ótimo, sempre tinha “alguém pra cuidar de mim quando todo mundo saia”. Morávamos em muitas pessoas numa mesma casa, e mesmo assim ninguém nunca reparou.

Minhas lembranças hoje sobre os atos e situações, são esparsas, são vagas. Eu só lembro que era bom. Eu lembro dos cheiros, eu lembro do gosto. Mas lembrar de tudo, eu não lembro.

Mas eu sei: eu fui estuprada! Eu fui abusada!

Eu fui estuprada, pedofilia, abuso de menor, eu fui abusada

Quando exatamente isso começou, eu não faço ideia. Eu era apenas uma criança. Mas eu sei que isso aconteceu. Uma das memórias que eu ainda tenho, é de reproduzir isso que eu aprendia com minha prima mais nova. Eu acariciava, eu beijava. Eu fazia ela sorrir. Antes que alguém me julgue, eu repito: eu não sabia que era errado. Ninguém nunca me falou o que eu fazia.

Eu lembro do dia, que meus pais nos encontraram trancadas num quarto seminuas. Eu devia ter uns 8 anos, ela uns 6. Nesse dia estávamos “brincando”. Meu pai abriu a porta percebendo que sumimos e deu de cara com nós duas, no sofá-cama, com um cobertor e viu as nossas duas calcinhas no chão. O susto foi grande, a bronca maior ainda. “O que vocês estão fazendo sem calcinha?!!!! ” Ele questionou. Eu não sabia responder. Ela não sabia responder.

Apesar disso, ninguém percebeu. Ninguém reparou que tinha algo estranho. Eu, que fui estuprada, repetia o que vivi. Eu, que fui abusava, abusava da minha própria prima.

Eu fui crescendo, tendo um pouco de repulsa daquela situação, um pouco de nojo quando ia percebendo o que tava acontecendo. Mas ao mesmo tempo, meu avô me falava: “Você tem que me prometer que isso vai continuar. Que o vô vai brincar contigo até os 18 anos, ta bem?”

Eu não tinha voz, eu não tinha vez. Eu tinha vergonha se alguém descobrisse meu segredo. Aos poucos, por conta disso tudo, eu comecei a entender. E ai comecei a querer ficar longe dele… Era difícil. Mesmo assim, isso durou doze anos!

Assim como tudo na vida, um dia isso acabou.

Eu fui estuprada, pedofilia, abuso de menor, eu fui abusada

Graças a Deus você deve estar pensando. Alguém viu, denunciou. Quem viu levou essa criança num psicólogo para que assim pudesse superar todos esses traumas. Graças a Deus alguém intercedeu. Graças a Deus, alguém olhou por ela.

Lamento, mas não! Como sempre, ninguém percebeu. Ninguém reparou.

O que as pessoas faziam? Brigavam, oprimiam e não entendiam porque essa criança tinha algumas atitudes. Porque ela tinha manias, problemas e era tão avançada pra idade. Mas em momento nenhum alguém percebeu o abuso, o estupro dentro da própria casa.

Eu parei de aceitar aquilo porque cresci. Eu parei porque percebi que o que estava fazendo esses anos todos era errado. E eu percebi que a errada não era eu, eu era vítima. Mas eu era convivente, eu sempre prometi que isso ia continuar acontecendo até meus 18 anos. Eu tinha 12, a conta não tá fechando. Isso me deixava confusa.

Mas então decidi parar. Decidi não aceitar mais ficar sozinha com ele em casa. Era difícil, mas comecei a rejeitar os beijos. Os toques. Qualquer palavra que ele tentasse trocar comigo. O pior era que agora sim meus pais percebiam. Minha família percebia. Percebia que eu queria estar longe, que eu tratava meu avô de forma diferente. E me obrigavam a abraçar. Beijar. Conviver e me obrigavam a trata-lo como se fosse o melhor avô do mundo.

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E agora, o que eu ia fazer?

Eu fui estuprada, pedofilia, abuso de menor, eu fui abusada

Agora sim que eu não podia falar. Como eu ia provar isso? Como eu ia conviver com isso? Afinal, minha família tava do lado dele. Pra mim só sobrava bronca. E se eu contasse, o que ia acontecer? (depois claro de uma bela surra!!!) Iam me julgar? Iam me forçar a contar?

Eu ia ser a ovelha negra da família e agora rotulada por todos? Todos iam saber que eu transei com meu avô. Que eu gozei com meu avô. MEU DEUS! NÃO!!! Isso é meu. Isso é particular.

Eu decidi tocar minha vida, esquecer o inesquecível. Ele continuava forçando, tentando, se insinuando. Eu, nessa época, aos 12 anos estava descobrindo o mundo e tive meu primeiro “paquerinha” digamos assim.

Eu gostava muito dele, mas o fato é que eu continuar fazendo tudo aquilo com meu avô era trair quem eu tanto gostava. E assim, na minha cabeça, se eu cedesse pro meu avô, mesmo lembrando que as vezes era bom. Estaria traindo o menino. E isso eu sabia, era errado.

Parei de vez com tudo isso! Segui minha vida da forma que consegui.

Eu superei tudo isso sozinha.

Eu fui estuprada, pedofilia, abuso de menor, eu fui abusada

Anos se passaram. O segredo cresceu comigo. Eu amadureci. Eu superei tudo isso sozinha. Um dia, depois de pensar muito achei que isso deveria vir à tona. Achei que eu deveria dividir o meu segredo. Eu namorava e pensava que não poderia existir qualquer segredo nesse relacionamento. Criei coragem e contei tudo o que aconteceu. Sem detalhes, sem descrever os meus sentimentos. Porém, nesse instante eu percebi: O caos estava formado. Ele não aceitou, não entendeu e não viu o meu lado. E como todo mundo, começou a me pressionar. Ele queria que eu contasse para todos, queria que eu fosse a polícia.

Ele não conseguia acreditar que por 12 anos isso aconteceu, e que até aquela época eu continuava convivendo com o meu estuprador, digo, meu avô.

Mais uma vez me recolhi. Não aceitei contar. Fiquei com medo mais uma vez de ser julgada, mal vista e ridicularizada por tudo o que passei. Mais uma vez vi que aquele segredo era só meu e ninguém tinha nada a ver com isso. Então me fechei.

Esse segredo até hoje continua comigo e pela primeira vez eu conto essa história. Ainda convivo meu avô. Ainda lembro de tudo o que aconteceu. E eu morro de medo de isso se repetir com qualquer pessoa.

Mas o que adianta ter medo, se as pessoas de modo geral acham que isso só acontece na novela? O que adianta ter medo se as pessoas nem sabem o que fazer ou o que notar quando algo de errado está acontecendo?

Eu entendo totalmente o que se passa com a cabeça de qualquer pessoa que passa por isso.

Eu passei. Eu continuo passando. Faz 25 anos que isso está na minha mente afetando a minha vida. Faz 25 anos que eu sozinha lido com isso.

Eu resolvi contar tudo isso pra você perceber que tudo isso tá muito perto. Pode ser que você me conheça. Pode ser que você conheça meu avô. Pode ser que você seja parte da minha família. Seja neta dele também. Pode ser que isso nunca tenha acontecido com você. Pode ser que isso nunca vá acontecer com você. Pode ser que você pense que tudo o que contei é mentira e eu só estou querendo chamar atenção.

Nesse momento, “pode ser” muita coisa. Mas só depende de você perceber, olhar, falar e principalmente NÃO JULGAR. Cabe a você ao conversar com uma criança e notar o que ela tá querendo dizer. Cabe a você demonstrar confiança. Ela não sabe o que é certo. Ela não sabe o que é errado. Ela não tem maturidade nenhuma de tomar qualquer decisão. Ela não pode se comprometer com qualquer tipo de promessa seja pelo tempo que for.

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Na dúvida, aja!

Eu fui estuprada, pedofilia, abuso de menor, eu fui abusada

Eu superei isso sozinha, e eu sei que posso ser considerada uma exceção. 12 anos de estupro superados de forma isolada sem nenhum apoio profissional e lidando mais muitos problemas normais da vida. Mas hoje eu me vejo como uma mulher forte e guerreira que não usa dessa história como forma de fragilidade, vitimização e sim superação.

Mas claro isso não acontece com todo mundo. Não é todo mundo que consegue sozinho seguir em frente. Muitas vezes quem passa por isso acaba por remoer de uma forma tão intensa tudo isso que fica incapaz de superar. Por conta disso, tornam-se escravas do medo, da dor… Recorrem a qualquer meio de não precisar encarar tudo isso.

Eu mesma confesso, já pensei muitas vezes nisso. Em abandonar tudo, em tirar minha vida, em agredir quem me agredia. Eu apenas não tive coragem de nada disso…

No fundo, todos nós somos pessoas que precisam de alguém que nos socorra, mas não sabemos como pedir isso. Eu queria que alguém me acolhesse. Alguém o impedisse. Alguém me protegesse, É CLARO! Mas essa não foi minha opção.

Não existe desculpa!

O estupro tá ai bem mais perto do que você imagina. Assim com meu avô também está e assim como estão muitos tios, tias, pais, mães, vizinhos… Todos estão calados!

Seja você a voz de quem precisa ser ouvido!

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