Eu, você e os que estão por vir

Eu, você e os que estão por vir

Quando a gente se conheceu, o frio da garoa incomodava um pouco meus braços mas eu ainda não queria deixar o ar fresco e entrar na casa em que rolava a festa. Você veio com olhos vermelhos e riso fácil, e o calor que trouxe compensou os calafrios que o vento me causava.

Disse olhando para o horizonte enquanto eu estava sentada no meio fio que eu tinha a escolha de permanecer lá fora acompanhada ou voltar para festa com uma companhia. Eu te contei, com uma breve citação de um livro que eu estava lendo na época, que eu aprecio minha solitude.

Você gostou disso

Ele tocando violão para ela

Ainda assim, insistiu em me oferecer companhia. Contou uma história aleatória sobre o escuro, observou demasiado tempo para o céu, perguntou de onde eu sou, o que eu sou e onde tenho paixão. Horas depois, me beijou quando sentiu que era propício, quando percebeu que me desarmou.

Entre nós nunca teve nada cósmico. Nunca pensava que no mês seguinte ainda estaríamos juntos. Nunca pensava no mês seguinte, na verdade. Você, para mim, era sinônimo de espontaneidade. Você era momentos. Eu não depositava minha vida em você, mas foi se tornando rotina.

Éramos um vício que ambos não bem compreendiam. Pouco importava, chegava o fim de semana e nós sabíamos conquistar a cidade. Você com sua roupa mal passada e eu com meu apreço pela estrada.

Por quase três meses, eu me acostumei a esperar quase todas quintas-feiras o som da porta abrindo às 18:00 e você chegando com muito assunto e alguma comida da padaria, enquanto o apartamento todo já estaria com o cheiro do meu café. Acostumei a te esperar sexta de madrugada, depois que saia da Augusta onde estava com amigos, tocando a minha campainha e pedindo para ficar. E acostumei a passar os sábados andando pela cidade com você.

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Nunca refleti sobre estar te amando ou não

Casal discutindo

Eu nunca precisei. Não sentia qualquer solidez entre a gente, nem necessidade da mesma. Até certo encontro. Era sábado à noite e você me esperava na portaria do prédio quando cheguei da faculdade. Era também a primeira vez que nos víamos naquela semana. A surpresa fez meu coração trepidar, e meu sorriso vinha de bem lá do fundo.

Nós assistimos a um filme de terror de qualidade duvidosa, e depois ficamos na sacada observando a chuva de verão dominar o meio-fio. De volta para dentro, você ligou seu ipod e dedicou a música Mais Ninguém para mim, e nosso tempo se desenrolou com ela e com muito vinho.

Mesmo envoltos com a incerteza de sempre, mesmo eu sabendo que não havia nada profundo rolando, mesmo que eu não depositasse qualquer crença naquela dedicatória, eu ainda sentia imensa euforia em te olhar e cantar desafinada contigo “mesmo que não venha mais ninguém, ficamos só eu e você”.

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Mas ainda viria

Mulher na janela

No mês seguinte, você iria conhecer essa moça bonita que iria te hipnotizar. Ela iria te falar seu nome, Luana, e te contar coisas estranhas encantadoras e, em instantes, você já iria preferir ela a mim. Nos afastaríamos então e você iria mudar seus planos de não se envolver com ninguém por ela.

Eu deixaria o nosso fim doer por alguns meses, sem perspectiva de encontrar qualquer outra pessoa para eu me intoxicar novamente com aquela atração e boas sensações. Então, um velho amor ressurgiria e as lembranças suas iriam deixando minha rotina discretamente.

Em uma madrugada no meio de uma festa, eu iria receber sua ligação em que você me conta como a tal encantadora Luana acabou com você e ainda assim, você não consegue deixar de amá-la. Nós conversaríamos por alguns dias até você se sentir melhor e desaparecer outra vez.

Mas tudo bem, porque eu estaria distraída com outros sentimentos…

Tatuagem, mulher

E mesmo depois de tanto tempo, estaria muito satisfeita de você me procurar como ombro amigo. Algumas decepções me fariam mudar de ideia sobre aquele relacionamento, e vários pequenos amores apareceriam mais tarde.

Em uma de nossas breves conversas em uma trombada na Paulista, você me contaria sobre ter voltado com ela e que estava tudo bem. Após nos despedirmos com um sorriso largo no rosto de cada um, eu choraria ao dirigir de volta para casa imaginando todas as qualidades que te maravilhou nela e porque não as tenho. Mas seria apenas mais um momento de fragilidade.

A vida iria correr tranquila, e o som de alguém chegando as 18h já estaria substituído por aquelas pessoas que tinham que se despedir. Eu decidiria partir para Praga e finalmente concretizar o meu plano de mudar de país. Eu e você nos encontraríamos alguns dias antes do meu voo em um bar onde ambos decidiram ir sozinhos, para esvaziar um pouco a mente depois de um dia cheio de trabalho.

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E a gente riria, risos cansados, das nossas semelhanças. Naquela conversa, eu te contaria dos meus planos de me mudar em uma semana e, com isso, você relembraria da minha contínua vontade de ir embora. Então, eu confessaria que estava surpresa com a facilidade com a qual eu ainda te contava sobre as minhas coisas. Você diria que não sentia o mesmo. “Sempre fomos bons de conversar”, quase cantou no ritmo. A noite terminaria em um beijo doce durante nossa suave despedida.

Eu não te veria mais desde então

Casal deitado

Enfim, nós teríamos um fim. Anos depois de você me dedicar Mais Ninguém, que então se tornou a minha música favorita. A mesma que coloquei para escutar enquanto voltava daquele bar. E enquanto eu me distanciava, cada segundo mais, da última vez que te vi, não pude deixar de refletir: antes de todo esse futuro chegar, enquanto estávamos juntos no meu apartamento, havia um presente em que essa música nos pertencia.

Naquele momento em que ela tocava no seu ipod, ainda era apenas nós naquela dança desajeitada de dois bêbados apaixonados por Banda do Mar, Salvador Dalí e conversas aleatórias. E mesmo que o “nós” não fosse infinito, aquela noite louca de quase amor eu e você ainda éramos.

Por: Fernanda Antônia Bernardes

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