Foi pura sorte

Eles nem precisavam acontecer. Ele vivia sua vida mediana, suas depressões, suas tentativas, suas falhas, suas frustrações e seus amores meia boca. Imprudente, inocente, um pouco inconsequente. Ela andava de muletas imaginarias. Um pouco calejada com os erros que a acometeram, se tornara um ser calculista e racional. Ambos tinham em comum o excesso de tempo que era jogado longe fabricando zeros.

A essa altura da narrativa, eles ainda se pertencem. Sim, cada um a si. Eles demorariam a se encontrar. A natureza sabe dos pingos e das enxurradas. Até que um dia, ”olá”. E no outro, ”quem sabe?”

Ela punha interrogações em tudo. Ele trazia clareza nublada pra exercitar cada canto da caixola. De tijolo em tijolo, montavam uma fortaleza para proteção da usina que em instantes, estava de pé.

Ela se abriu, mudou, se revelou, voou pelo céu do próprio quarto. Ele só desatou o nó que a ligava ao cais. Assoprou. Assistiu o barco se afastar. Acenou. Ela sentiu sede e fome. Naufragou no salgado que não chegava nem perto de pertencer ao mar. Ele se defendeu… De quê? Deu corda para se enforcarem. Se enforcou. Se mantiveram sobreviventes. Na realidade, escravos. (Deixemos obscuro o lado obscuro da história.) Cada um num hemisfério, sem conexão direta.

Os noticiários avisavam das catástrofes do outro lado, mas enquanto estivesse inerte aqui, uma pena o lado de lá. Na fuga de um terremoto mundial, partiram para outro planeta.

Ele, desastrado, tropeçou em bagagens que não eram suas. Ela o viu chutar sua bolsa de trapos e nunca ficou tão feliz com um ato de menosprezo. Foi ali. Bem naquele dia. Ele que pensara nunca mais. Ela com os dois pés atrás.

Ele a carregou no colo até seu estômago se revirar implorando combustível. Ela que sempre tirou de si, aprendeu a apenas dividir.

Estão no início do caminho, aprendendo a sincronizar remadas. Um dia, por um descuido aleatório que escolherem para si, eles se apegam de vez aos laços que só os dois, aliados, podem embelezar ou desatar.

Está sem prazo o término do universo particular compartilhado. Era um amor imprescindível. Era quase 2. Eram quase 2. Aquele encontro não foi tão casual. Eles não precisavam acontecer.

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Sempre digo que me sinto num anúncio de Jornal quando tenho que me descrever. "Karen, 21 anos, seios médios, faço tudo.." Isso é bem difícil. Futura Delegada Federal. Para garantir, vou ser escritora também, né?! Só assim vou poder ser tudo o que eu quiser ser! Bom.. Amo o amor, amo o Cazuza (MAIS QUE A MIM), amo o exagero de ser simples.. Me leiam e me interpretem da maneira que preferirem, mas tirem algo bom de tudo. É assim que eu levo a minha vida. Felicidade.