Dia desses eu ia participar de um evento como palestrante. Como sempre, estava feliz pelo convite e orgulhosa de poder assumir esse lugar falando sobre as coisas que eu sei.

Me preparei para levar conteúdo relevante, estudei o tema, mas a proximidade da data começou a me deixar angustiada. Alguma coisa estava me incomodando com essa apresentação.

Não era medo de não saber responder as perguntas ou não atender as expectativas do público, afinal, eu havia estudado e me preparado para oferecer o meu melhor.

O espelho me deu a resposta que os livros e vídeos de treinamento não tinham oferecido.

Eu estava com medo de me mostrar por que eu não fui pra academia e nem tinha sapatos novos. Era isso que estava me destruindo.

Se isso não faz sentido pra você, parabéns! Você atingiu um nível de desenvolvimento onde o conteúdo te importa mais que a forma. Eu ainda fracasso no meio do caminho.

Se a forma não importasse?

Enquanto eu estudava pra trazer às pessoas conteúdo, não me ocorreu que alguém se importasse de eu não ser uma palestrante bonita, mas há algumas horas do “show” me pareceu indispensável calçar sapatos incríveis.

De vez em quando, eu receio não ter minhas ideias validadas por não atender os padrões estéticos que em nada influenciam no tema da minha palestra.

Eu deveria me orgulhar do meu empenho, mas beira do palco ao ver as mulheres lindas, elegantes e maquiadas que me esperavam eu enlouqueci.

Naqueles minutos que antecediam o sucesso do conteúdo eu odiava a forma

E assustadoramente odiei a minha roupa, meu cabelo e a maquiagem que tinha feito com tanto carinho pra estar ali.

Pensei em todo o tempo que passei assistindo e lendo coisas sobre como “ficar bonita”, e todo o tempo esquecendo dessas sugestões, afinal os padrões mudam a cada estação.

Lembrei que eu preciso estar bonita e por isso fiquei nervosa na beirada do palco.

Estar bonita justifica o tempo que passo lendo sobre isso.

Lembrei que o pneu furou e eu não sabia como trocar. Me disseram pra estudar como ficar bonita porque eu precisava, mas nunca me disseram para aprender a trocar pneu.

Odiei tudo aquilo que me diziam pra fazer e que tantas vezes me afasta de ser o que realmente sou: uma mulher incrível cheia de histórias pra contar.

Uma mulher incrível que sabe distinguir vários tons de nude, mas que não sabe trocar pneu.

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