Insônia produtiva

Já passou das três e o sono não veio. Eu não sei que raio de coisa aconteceu mas, de repente os azulejos do teto ficaram interessantíssimos. Eu conto um por um e sempre me perco na metade. Até recomeço, mas o barulho da minha respiração faz perder o foco. Tento dessa vez sem respirar. 1,2,3,4… quando chego no décimo estou quase desmaiando e desisto.

Tem jeito não, quando a cabeça pensa de mais a cama parece de pedra

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Ok! Eu me rendo! Acendo o abajur e a lâmpada está piscando, lembro que deveria ter trocado há algumas semanas atrás. Mas, vai assim mesmo… Caneta e caderno na mão eu decido abrir o coração, enquanto a lua me espia pela fresta da cortina. “-Sim minha cara lua, eu falei caneta e caderno, porque sim, eu sou dessas que ainda rabiscam…”

Não sei bem por onde começar. Tento um ”Hai-Kai”, mas ele não me cai tão bem… Quem sabe um soneto!? Ok! Eu desenho a primeira letra, um ”Z” de Zorro, de Zebra, de zumbido… “-Mosquitos malditos, saiam daqui!!!!”. Eu grito abanando os invasores com a mão esquerda! Já teve um anel nela, se bem me lembro. Eu não tinha medo de escuro, se bem me lembro. Enquanto isso, o abajur continua piscando e ameaçando me jogar num apagão.

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Tento novamente, caneta escorregando pela superfície lisa da folha em branco. E não é que vão saindo? Letras arredondadas que não tocam nas linhas… Coisa de sonhador, me disseram uma vez. Será que é isso o que eu sou??? Uma sonhadora insone, cuja letra não toca a linha do caderno? Bem, mas pra sonhar eu não teria de conseguir dormir primeiro?

O relógio mostra que são três e quarenta e dois

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Ainda tenho problemas em ver as horas em relógios ”de ponteiros”, reflito, por isso uso um digital… Acho minha dificuldade engraçada e escrevo isso. Só não sei com o que rimar. “-Hum… digital rima com… deixa pra lá…”. Arranco a página e recomeço. Um poema curto, desses bobinhos, que só gente de bem com a vida entende e gosta. É despretensioso, mas vai ganhando forma, estrutura e até alguma melodia poética. E não é que a rima funciona!!??

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Quatro da manhã. Somos apenas eu, meu caderno de páginas recicladas e minha caneta roubada de escritório. No meio de uma insônia produtiva vou me desfazendo em letras. São minhas palavras, os sonhos que eu sonharia se pudesse dormir, muito de mim e parte do meu tudo. Somos eu e minha escrita, meus rabiscos da madrugada sobre uma vida meio rasurada. São trechos meus e trechos seus…


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