Me deixa ser teu blues

Me deixa ser o violão que você dedilha embriagado. Enquanto a lua, ganha espaço, atravessa as cortinas e tinge de prata seu apartamento com móveis que não combinam. Me deixa ser o cigarro que você traga, desesperado, entre uma taça e outra daquele vinho barato. Que ganhou do chefe no último natal e demorou tempo demais para abrir.

Me deixa ser teu café morno, numa manhã tão cinzenta quanto os outonos da paulista. E deixa eu ser também a manchete do teu jornal matinal… Roubado na porta do vizinho.

Eu quero ser a coberta remendada que te envolve antes daquele sono preguiçoso de domingo, enquanto a chuva tamborila na vidraça e faz o tráfego parar nas ruas. Quero ser a água que cai da ducha e desliza afoita pelo teu abdômen. Se deixando escorrer e buscando asilo entre as coxas torneadas pelo futebol das quintas.

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Eu quero ser aquela música

Cheia de melancolia que ainda toca na sua vitrola. Quero te levar para outros tempos, te fazer cerrar os olhos, seduzido pelo solo envolvente do saxofonista tristonho e te alcançar a alma como apenas ela faz. Quero ser tua companheira insone, no topo da cidade. Quero ser a voz rouca que sussurra e te faz esquecer o frio atrás das paredes que te isolam do mundo.

Quero ser sua essa noite, quero te aconchegar nos meus seios e te acarinhar madrugada adentro, quero te arranhar de leve e mordiscar tua boca. Quero encaixar nos teus braços, te receber e fazer gemer mais alto que o som do disco comprado em brechó.

Me deixa ser teu sossego no fim do dia, te arrastar para nosso mundo secreto e te amar com tudo o que tenho. Porque o amanhã é uma partitura em branco, esperando para ser composta, mas hoje, só quero nossa respiração ofegando como trilha.

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