Medo de andar na rua, até quando?

Coloquei os pés para fora do meu prédio, e agora? A luz do dia não me deixa mais segura, mas o escuro que reina nos cantos das casas me deixa ainda mais assustada. Olhos arregalados para enxergar melhor, o caminho está completamente vazio, e nem as chaves que ando em meio aos meus dedos fazem eu me sentir melhor.

“Sou forte”, me vem ao pensamento. “Se algum homem tentar alguma coisa eu vou revidar”, mas no fundo a gente sabe que se realmente alguém tentar, as chances de ser violentada são muito maiores do que escapar.

A respiração já acelerou faz tempo, os sentidos em alerta chegam a me dar dor de cabeça. “Eu deveria ter comprado aquele spray de pimenta”. Lá vem dois homens, vou fazer a pior cara que sei fazer. Eles já sorriram, já me viram, que inferno. Atravesso a rua? Não, não posso deixar o medo me dominar. Mas não tem jeito, eu nasci mulher.

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Por que tenho que ter medo de andar na rua?

O olhar deles me enche de raiva, quem eles pensam que são? Me sinto um pedaço de carne, estou totalmente desprotegida. “Qualquer coisa eu grito o mais alto que puder”, pensei já limpando a garganta.

Olhei em volta procurando ajuda, mas era eu e eles na rua. “Nossa, que delicia”, eles falaram. Foi quando eu joguei pela boca todos os palavrões que me vieram a cabeça. Eu já estava pronta pra correr, mas eles continuaram andando, ainda bem.

Faltam algumas quadras, acelerei o passo. No pensamento só pulsam questionamentos sobre essa falsa liberdade de ir e vir, sobre o machismo que cresce no nosso mundo, sobre esses homens que se sentem donos de mim.

Quantas não tiveram a sorte que eu tive, de nunca ter sido levada de fato? Quantas e quantas mulheres estão sendo violentadas neste exato momento? Quantas estão desaparecidas? Quantas morreram em plena agonia? E dentro desse turbilhão de perguntas a mais forte delas me invade: até quando?

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E entre sons e cores me transbordo em existir. Me apaixono pelo que sinto, sem medo me entrego a vida. Falo muito, rio alto, quero sempre mais música, mais magia, mais seriados. Me distribuo entre o amor pela fotografia e pelos meus livros. Uma Jornalista em constante mutação, sem medo do mundo e com sede de aprendizado.