Moradia vazia

Era inverno, mas tinha um sol lindo lá fora que invadia as gretas da casa e se fazia parte dos móveis, parte da gente, porém só visitava. Uma visita linda, quente e ofuscante, assim como o nosso (quase) amor que também só estava de passagem. Não demorou muito para o sol ir embora. Afinal, era inverno. O sol dorme cedinho no inverno, e com a mesma demora o amor se foi.

Ele sempre se vai, no entanto, diferente do sol, não volta na manhã seguinte. Minha relação com o amor é extremamente vaga, não nos entendemos muito bem. O amor foge pela janela quando eu entro pela porta. Ou eu escapo pelos fundos quando ele chega pela porta da frente, vem sendo assim desde sempre. E esse foi só mais um caso de um possível amor que se viu obrigado a dizer adeus.

“É que ele não presta”.

Perdi as contas de quantas vezes eu disse isso. Eu precisava disso. O que ele causava em mim era diferente, quase me assustava. Eu não queria ir embora, mas tinha medo de ficar. Tinha medo de gostar muito de ficar.

Então eu inventava desculpas, dizia que era esperta e que só não estava caindo nas garras de um garanhão. Mentia. E mentia pra mim mesma. É que coragem me faltava. Nunca fui porta aberta, mas deixei que ele espiasse pela janela, apesar de ter medo de ele tentar pulá-la. No fundo, eu até queria que ele a pulasse, invadisse e fizesse morada. Só que eu confesso: eita janela alta e estreita a minha! O cara tem que ser um super-herói. Já até fechei.

Ele me conhecia, pouco, porém mais do que ele pensava conhecer. E eu temia. Acontece que o bem que ele me fazia era maior do que qualquer medo; a gente ria, ria e ria. Sabe, ele melhorava o dia, com pouco, muito pouco. Honestamente, ele nem me fazia feliz, a verdade é que ele permitia que eu me 1fizesse feliz. Isso é raro.

As pessoas normalmente querem nos fazer feliz, a qualquer custo.

Muito bobo. Afinal, a gente não sabe nem o que faz a gente feliz, como vai saber o que faz o outro? Santa teimosia. É que o ego grita e a solidão implora: – se você o ama, o tranque na gaiola e o mostre o quanto você pode o fazer feliz. Só que me deixe esclarecer uma coisa: gente engaiolada não é feliz, é tipo passarinho. Pode até pensar que é, mas na primeira oportunidade de voar, verá o que é felicidade.

E aqui vai um segredo: você pode ter um passarinho em sua vida sem prendê-lo – o mesmo serve para quem você ama. Minha avó tem um sabiá, ele pousa sempre que pode perto da janela dela, canta um pouco, como quem veio ver como ela está, mata a saudade e vai embora. Ela nunca pensou em prendê-lo, porque ela sabe que ele vai voltar, enquanto ele quiser. Isso é permitir que o outro seja feliz contigo.

Não seja uma gaiola: seja um ninho.

Não se deve querer estar presa, e nesse ponto eu estava certa. Mas imagine só, você quer comprar uma casa, vê um anúncio no jornal de uma casa bem interessante, então vai conhecê-la. Chegando lá o dono diz que você só poderá entrar nela quando comprá-la. E por enquanto poderá apenas olhar pelas janelas, que são pequenas e não permitem a visão dos cômodos inteiros. Você se mudaria para essa casa? Acredito que não. Eu era a casa, ele o comprador. Eu o entendo, por não ter ficado, espero que você também.

Como você pode imaginar, num belo dia, ele encontrou outra pessoa que o deixou fazer moradia. Abriu a porta e perguntou se ele gostaria de entrar. Aconchegou-se e gostou. Eu sabia que ele estava muito dividido. Mas ele estava certo, não poderia se arriscar num universo tão desconhecido. E muito mais, ele notou que eu não queria ser moradia de ninguém, talvez por teimosia, ressentimento, falta de jeito, de gosto ou por simplesmente estar sempre ao lado oposto.

A verdade é que se em G.H. (personagem da nossa querida Clarice), qualquer começo de pensamento esbarra logo com a testa. Em mim, qualquer começo de sentimento esbarra logo com o estômago.

Sofrimento engasgado. Até já encontrei donos de um sorriso que mexeram de verdade comigo, ou de abraços envolventes e quentes, mas não o bastante. Nunca foi o suficiente para o amor chegar, fazer moradia, se instalar no sofá da sala e aquecer a casa como uma lareira acesa.

Eu confesso que sinto a falta dele,

A falta de nós. Rir do nada e de tudo. Falar de nada e de tudo. Ter nada e ter tudo. Companhia que faz falta. Ele era dono de um silêncio aconchegante e de uma voz arrepiante. Eu o adorava. Ele sabia. Só que sempre fui moradia vazia, não sei ser preenchida.

Em qualquer sintoma de paixão, sinto como se correntes me segurassem pelos tornozelos e apenas um impulso fosse suficiente para me fazer cair de cara no chão. Então eu freio sempre que me lembro de que as correntes podem estar chegando ao fim.

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Apaixonada por astrologia. Áries com ascendente em Áries, regida por Marte. Nascida numa terça-feira, que também são regidas por ele, o Deus da guerra. Filha do planeta vermelho e amante de Netuno. Moça laranja que ama azul. Uma louca que entende que a loucura é também uma forma doce de viver. Impulsiva, bagunçada, perdida; totalmente na contramão. Fora do eixo. Escrevo para me ver de frente.