A morte de alguém que eu não conhecia

É um cômodo incomodo quando a morte bate ao lado, mas não nos toca. Hoje, mais uma vez ela bateu ao lado e como tantas outras vezes não era para me tocar, mas tocou. Era a morte de alguém que eu não conhecia. Era a morte de dona Maria…

Nunca fui de funerais e provavelmente nunca serei. Sou daqueles que acham que morreu acabou, finish, fim de papo… Dos entes queridos que faleceram a minha última visita ao um funeral foi na morte da minha avó, isso quando eu ainda era criança. Minha avó não era tão distante, mas não tão perto assim.

Quando você é criança e vê uma pessoa ali, deitada, fria, branca, com tampões de algodão nas narinas você não entende a profundidade que aquela cena tem. Tão pouco enxerga o quão raso é o rio que separa a vida da morte. Menos ainda entende a fragilidade que é o sopro de vida.

A morte de alguém que eu não conhecia

Dona Maria era uma pobre senhora. Eu a enxergava como enxergo a minha mãe e minha falecida vó. Talvez se vocês conhecessem Dona Maria, também a enxergariam como enxergam suas mães, suas avós…

Não estou dizendo de forma alguma em relação a sentimento, até porque mal conhecia dona Maria. Vi poucas vezes desde que comecei a trabalhar ao lado da casa dela. Conhecia mais o seu filho. Homem de pouco estudo, mas de muita vivencia. Já havia sido de tudo, bêbado, usuário de drogas… Mas sempre foi um sujeito de bem. Um senhor simpático que está sempre disposto a te ajudar…

A morte não espera para você viver. Pois bem, a visão que tinha de Dona Maria era de mais uma vida que se esvaece de tanto trabalho, de tanta entrega, de sacrifícios. Quantas vidas se vão assim? Sem o real comprometimento com a sua própria vida.

Dona Maria sacrificou sua vida pelo marido e pelos filhos. O que não torna dona Maria menos feliz, mas torna sua vida menos significante. Não entenda mal, quem aqui não tem uma vida assim?

Entregamos nossas vidas aos outros

Somos forçados a entregar boa parte de nossas vidas para os outros. Para o bem estar de quem tem e pode mais que nós. Somos forçados a entregar nossas almas para o diabo, que veste gravata e vai aos restaurantes mais caros provar de nossa própria carne.

Somos servidos a mesa em forma de tempo. Nos devoram a cada minuto que nos fazem sentar, levantar, digitar, pregar, varrer… Nos devoram cada vez que sacrificamos nosso bem estar, pelo bem estar deles. Quando saímos as pressas, quando voltamos exaustos. Quando fazemos horas extras; ganhando dinheiro e perdendo vida.

Tudo que eles querem é o nosso tempo, pois quanto mais tempo gasto, melhor é o sabor. É como se estivéssemos sendo defumados. Pendurados por um gancho do qual não podemos sair. Se sairmos, morreremos queimados. Então o que nos resta é continuar ali, sendo lentamente defumados, até virar prato principal, até ser descartado como resto…

A morte mexe com você

Quando vi o caixão de Dona Maria entrando no carro funerário meus olhos encheram de lágrimas. É realmente chocante como a morte de um ser que não é nada seu, pode te tocar dessa maneira. “Mais uma vida que se vai…”- pensava eu. Ao mesmo tempo que comparava a vida de Dona Maria a minha e talvez fosse isso que me doía tanto.

A vida que vale a pena não se resume ao sucesso profissional ou a ganhar dinheiro. Pouco estou me fodendo se dona Maria teve uma vida simples ou não, isso é o que menos importa. Se ela bebeu dos vinhos mais caros, se ela viajou para Europa, se ela experimentou pular de paraquedas, não é isso!

Mas o que Dona Maria fez para marcar sua passagem na Terra? Pouco, quase nada. Assim como eu, assim como você. E qual sentido teria a vida se nem se quer sentido damos a ela? “Mas ela deixou filhos, netos, ela sempre estará presente no pensamento deles, nas histórias deles…” “Crescei-vos e multiplicai-vos”
“Ela foi uma mulher exemplar, com certeza está em um lugar melhor”.

A recompensa está na felicidade

Não é tão difícil assim estar em um lugar melhor que a Terra, realmente não é. Mas se o objetivo é sacrificar uma vida inteira para ter uma recompensa lá no final, quero morrer agora. Minha recompensa tem que ser diária, minha felicidade tem que ser diária!

Como aquele sentimento que nos vem ao ver o sorriso de quem nos ama cada vez que falamos algo bonito, ou cada vez que lhe damos um abraço… Se minha vida for um resumo do que eu faço para o que eu recebo, como um cão que da uma pirueta para ganhar um osso, realmente não quero viver.

Quem se importa com a sua morte? Mesmo que nos últimos anos dona Maria já não fosse mais a mesma mulher. Pois passava a maior parte de seus dias no fundo de uma cama, pedindo inconscientemente pelo fim de tanto sofrimento.

Seu filho estava ali, chorando pela morte diária dela. Chorando pela falta que ela iria fazer, da falta que ela já estava fazendo. E apesar de todo o incomodo que algo assim proporciona, seu filho a preferia viva. Por isso, inconformado ficava ao lado do caixão, passando a mão nos cabelos rasos e brancos de dona Maria.

Tenho medo de morrer

Quase não continha minhas lágrimas, a dor da cena se misturava ao medo do simples fato de deixar de existir. Sim, tenho medo da minha própria mediocridade. Tenho medo de sonhos não realizados, de palavras não ditas, de ações não tomadas, de gestos não concretizados… Tenho medo de me arrepender muito mais pelo que não fiz do que pelo que fiz.

Mesmo com todos esses medos a vida não para pra que eu desenvolva um plano de ação. Ela vai correndo como um maratonista corre para chegar ao fim dos 42,195 km, sem parar para nada. O fim é o único objetivo. E qual seria o nosso objetivo se não existisse um fim?

Absolutamente nenhum. A morte, ainda é o que rege a vida. Mas não façamos de nossas vidas esboços para a morte. Ser um pai ou uma mãe dedicada não e mais que nossa obrigação. Assim como fazer do mundo um lugar melhor.

Se dona Maria construiu um mundo melhor, realmente não sei. Mas e nós? O que estamos fazendo para que tenhamos um mundo melhor? Pouco, quase nada…


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