A culpa não é da mulher

“Oi Pati, gostaria de compartilhar minha experiência depois da roda de conversa de ontem sobre o corpo feminino. Resolvi mandar pra ti por ser quem eu conheço mais e por me inspirar desde o dia em que te conheci:

Eu ouvi mulheres falarem palavras que estavam presas em minha boca. Eu vi mulheres com problemas diferentes dos meus falando sobre isso abertamente e sem medo. Eu senti mulheres que como eu vivem em uma sociedade machista de cabeça erguida e com um sorriso no rosto. Eu me senti mais forte ao presenciar a força de cada mulher que estava ali.

A minha história não é mais difícil ou cruel do que a história de cada uma daquelas mulheres. Mas eu percebi que os meus problemas são os problemas delas, assim como os problemas delas são problemas meus.

Por anos carreguei a culpa de um problema que não era meu

O assédio sexual que eu sofri aos meus 15 anos é o assédio que elas sofrem todos os dias. E ver isso e sentir isso me fez ter uma visão nova de mim mesma e da minha história.

Por anos me culpei por um erro que nem mesmo era meu. O assédio veio por pessoa que eu não esperava, alguém que era da família, alguém que eu confiava. E passar por algo assim te muda completamente. Mas na minha cabeça ingênua aos 15 anos a culpa era minha.

Afinal eu estava pedindo por aquilo, não é?

Quer dizer, eu usava biquíni na frente dele durante a férias na praia, eu ria alto e chamava atenção, qual é, sou uma menina – tenho que ser delicada, quieta e não chamar tanta atenção para mim mesma, tenho que me comportar igual uma mocinha – era o que eu ouvia. Eu usava shorts e saias curtas, cacete eu usava cropped. É claro que eu estava pedindo por isso.

Me lembro de sentir um medo paralisante, mas depois uma vontade gigante de gritar ao mundo o que tinha acontecido. Então contei tudo para a pessoa que eu tinha certeza que ia me compreender, minha maior confidente, a mulher que me criou para ser uma pessoa honesta e forte. Contei para minha mãe. Afinal aos meus olhos ela era a mulher mais foda que eu conhecia no mundo todo.

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Acho que a dor do assédio foi ultrapassada pela dor da rejeição

Acho que a dor do assédio foi ultrapassada pela dor da rejeição quando contei a minha mãe o que tinha acontecido e ela não acreditou em mim.

“Você tá falando isso só pra chamar a atenção”. Aquela frase dela ficou cravada em mim por anos. Foi quando parei de ser eu, parei de “chamar a atenção”, parei de usar as roupas que gostava, parei de ir à praia que tanto amava, parei de dar risadas altas, na verdade parei de dar qualquer tipo de risada. Eu já não me pertencia mais, tinha me perdido em algum lugar e não sabia mais como me encontrar.

Foi quando a automutilação começou

Até porque a culpa era minha, certo? Nada mais justo do que eu sentir a dor. Aos 16 anos enquanto todas as outras meninas saiam para festas e tinham seus primeiros namoradinhos, eu me afogava em um silêncio só meu.

Não confiava o bastante em alguém para que se aproximasse de mim. Eu encenava sorrisos e vivia com uma máscara de está tudo bem comigo e você como tá?

Mas quando descobriram o que eu vinha fazendo comigo mesma uma nova culpa foi jogada para mim. Porque é claro que eu estava fazendo aquilo pra de novo “chamar a atenção”, mesmo tendo escondido tudo por anos.

De novo a culpa era minha, claro

Eu entrei em uma depressão porque eu quis. Eu tive pensamentos suicidas porque eu quis, eu me distanciei e fiquei fria como gelo porque eu quis e a culpa era toda minha, sei disso. Era o que me falavam o tempo todo.

Uma mentira que fiz ser verdade por ficar em silêncio. Porque ninguém chegou pra mim e disse, “Ei garota a culpa não é sua”.

No fim além de esconder meu corpo em roupas largas e compridas eu escondia também meus pulsos. Até porque as marcas que eles carregam acabavam trazendo um sentimento de desconforto pra quem via elas. Então eu tinha que esconder para que os outros não se sentissem mal. De novo, os outros, não eu.

Faça frio, faça calor, lá estava eu de calça e blusa

Escondida em um silêncio só meu. Mas o que não nos dizem sobre o silêncio é que um dia ele grita. Ontem vendo e ouvindo outras mulheres o meu silêncio gritou, não para os outros, mas para mim mesma e eu disse.

CACETE GAROTA ACORDA, A CULPA NÃO É SUA, NUNCA FOI, PARA DE SE ESCONDER E OLHA AO SEU REDOR O QUANTO DE MULHER DA PORRA TEM DO TEU LADO.

Alguém falou, em algum momento que cada ruga, cada marquinha que temos no nosso corpo faz parte da gente. Conta quem somos e conta a nossa história.

As marcas no meu pulso não falam mais quem eu era, mas quem eu sou

Não falam o que fiz, mas o que eu venci. E foi pensando nisso que eu comecei a encarar minhas cicatrizes de uma maneira diferente. Eu entendi que elas não significam minha fraqueza, mas sim a minha força.

Gostaria que minha mãe me visse e se visse da maneira que agora me vejo, e que agora a vejo. A culpa também não era dela, ela é tão vitima quanto eu.

Ela foi criada por um pai e uma mãe machistas, se casou com um homem machista, não pode estudar para cuidar da casa e da família. Sempre teve o sonhos e desejos dos outros em frente aos seus próprios desejos.

No fim ela não teve culpa

Aprendi a não culpar mais ela por meu silêncio e principalmente a não culpar mais a mim mesma por tudo que me aconteceu.

Espero que um dia minha mãe se veja do jeito que hoje eu a vejo, uma mulher forte assim como todas nós que todos os dias enfrentam uma sociedade opressora.

O que eu queria deixar registrado é o meu muito obrigada a todas as mulheres que estavam lá ontem e principalmente as meninas que organizaram o evento, não sei quantas vidas vocês tocaram, mas sei que fizeram eu enxergar a mim mesma de uma outra maneira.

A palavra de cada uma fez eu me sentir mais forte. Obrigada por essa iniciativa e queria que você e todas as outras meninas que conduziram a roda de conversa soubessem a quão grata estou.”


Esse texto é a resposta

A resposta de uma mulher ao evento que participei, promovido pelo Senai Criciúma e dirigido pela Psicóloga e Professora Ananda Figueiredo.

Sinceramente eu escreveria um outro texto para responde-la, mas vou pedir a ajuda de vocês para que a roda de converse continue aqui nos comentários, nas redes sociais, no seu grupo de amigas e onde você estiver.

Não se esqueça: A culpa não é da mulher. Existe toda uma cultura que construiu e alimentou a visão que temos sobre nós, o que precisamos alcançar para nos encaixar, os comportamentos pré determinados. Tudo nos foi imposto, mas não precisamos mais aceitar o que não nos faz bem.

Leia também: Dê vida a mulher que existe em você

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Sou psicóloga, escritora e produtora de conteúdo para internet. Mas também gosto de maquiagem, de séries, de cozinhar para os amigos, de cuidar dos gatineos, de amar as pessoas como se não houvesse amanhã e que claro, volta e meia guardar uns ranço porque ninguém é de ferro! Se você leu algum texto meu, por favor, expresse sua opinião nos comentários. Vou adorar o seu feedback!