Na sua gaveta

Deixa eu bagunçar o seu cabelo? Não só o seu cabelo, você inteiro? – Perguntei, por incrível que pareça, em tom sério. – Você é maluca. – Ele me respondeu, sorrindo. Sobrou sorriso: de dente em dente, mastigamos nossos juízos.

Àquela noite e todas as próximas noites tiveram um tom diferente nos nossos céus. Poderíamos colorir um outono inteiro. Pela primeira vez, eu não tive medo, não guardei segredos, não tive pressa. Eu me vi inteira. E não tinha nada a ver com ele, tinha a ver com nós. Um nós que não doeu – raridade nas minhas desventuras. Os nós costumam me apertar, me sufocam, me tiram o ar. Sempre me vejo obrigada a desatá-los.

Ele parecia despreocupado, desatento, jeito de quem não quer nada. Desarmado. Azul como a sua camisa azul. Fazia tempo que eu não conhecia alguém azul. Chamo de azul gente que é tachada de fria – porém não é -, que é séria, se mostra responsável, que passa segurança, gente difícil de entregar-se. Mas, pessoas leves, brincalhonas, otimistas, não te pesam as costas. Sempre me encanta uma alma azul.

Dobrou a manga de sua camisa, recusou o cigarro que lhe ofereceram e voltou a falar, apaixonado, do seu trabalho. Eu bebi mais um gole da minha cerveja. Acenei com a cabeça e concordei com tudo que ele falava, confesso que não estava entendendo muita coisa, mesmo assim queria ouvir mais. Aos poucos, nos misturamos em palavras, olhares e sorrisos.

Dançamos sem música e cantamos juntos fora do tom

Deitamos na mesma temperatura em colos que se encaixaram. Quando deu a nossa hora, fomos embora, mas nossos cheiros, não. Estão lá até agora. De longe, sabíamos que seríamos nossas próximas preocupações e nossos futuros sorrisos, também. Só que não me atentei a nada disso, naquela noite, eu deixei que as suas luzes acendessem meus possíveis breus e brilhei no seu escuro. Ah! A gente não sabia onde iríamos tropeçar. Não dá para adivinhar.

Eu arrumei meu vestido, ele o elogiou e disse: – Eu não deveria, mas sim, você pode bagunçar o meu cabelo e tudo que você quiser. Tome conta das minhas gavetas.

– Se você se incomodar com seu cabelo bagunçado ou quiser suas gavetas de volta, eu saio de fininho, não tem problema. Eu fujo para o frio dos bares da cidade, sem recusar nem um cigarro. Você só vai precisar pentear os cabelos, passar uma, ou mais noites, embaixo da ponte dos “desamados” e voltar a viver a sua vida normal, dentro das suas sensatas camisas. Vem sem medo, que eu vou bagunçar você, mas qualquer coisa, a gente arruma. – Respondi.

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Apaixonada por astrologia. Áries com ascendente em Áries, regida por Marte. Nascida numa terça-feira, que também são regidas por ele, o Deus da guerra. Filha do planeta vermelho e amante de Netuno. Moça laranja que ama azul. Uma louca que entende que a loucura é também uma forma doce de viver. Impulsiva, bagunçada, perdida; totalmente na contramão. Fora do eixo. Escrevo para me ver de frente.