Na verdade não nos importamos com os outros

Um bom dia é dado. Não é ela, não sou eu. É um estranho, qualquer. Dando aquilo que não lhe pertence. Dia bom pode ser para qualquer um, menos para ele.

Quem gosta de trabalhar no pouco tempo que lhe resta de folga?
Quem gosta de trabalhar no pouco tempo que lhe resta de vida?

Os minutos passam, mas não para ele. Ele está ali de pé, dando bom dia para os que chegam. Chegam comprando coisas. Compram rótulos, compram vidas…

O telefone toca. Não é ela, não sou eu. É qualquer estranho, vendendo algo. É qualquer estranho, tentando ser feliz com dinheiro.

De quanto precisamos para sermos felizes?

Por que esse ritmo frenético?
Por que essa luta incessante?

Alguém bate palmas. Não é ela, não sou eu. É qualquer estranho, vendendo algo. É um cobertor, uma panela, pode ser milho ou espelho…

Quantas migalhas precisamos para respirar?
Quantos sorrisos falsos precisamos dar?

Um boa noite é dado. Não é ela, não sou eu. É um estranho, qualquer. Que trabalhou o dia inteiro vendendo, que trabalhou o dia inteiro se doando. Que agora, para manter as contas em dia trabalha em um segundo emprego.

Contas em dia?
Contas de quem?
Para quem?
E para que?

Paga a dívida com sua própria vida…

“Hoje não, mas amanhã eu vejo o pôr do Sol”.
“Hoje não, amanhã eu vou no aniversário do meu amigo”.
“Hoje não, amanhã eu vou visitar a minha mãe”.
-Um estranho qualquer

O amanhã vai ser sempre o futuro, nunca o presente.

O amanhã nunca chega para aqueles que correm para o nada em ritmo frenético, querendo nada e achando que o nada é tudo.

Mas e aqueles que são transformados em nada?
Correm para o que?
Correm do que?
Correm apenas para viver, porque se pararem, morrem.

“Boa noite!”
Não era ela, não era eu. Era apenas mais uma mulher. Se doando, se entregando. Fazendo o inimaginável para se manter viva. Viva as chances de seu filho de viver com dignidade. Mesmo que a dela seja jogada no lixo por seres que não entendem a realidade de outros astros. Que entendem corpos, como apenas corpos.
“Quantas migalhas precisamos para respirar?”
Ela, parada na esquina precisa de apenas algumas. Para que seu choro vire gozo de alguém. Para que sua dor, vire prazer.

A nossa dor é sempre o prazer de alguém. Dessa vez é ela, dessa vez sou eu.
Você sente a dor do mundo?
Você enxerga a dor no próximo? 

 

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