Nota para ele

Você gosta de frio na barriga? Ele me perguntou com o tom de quem tava planejando algo. – Gosto! – Eu respondi como quem diz que topa assaltar um banco.

Eu sempre fui caçadora de frios na barriga. Costumo dizer que é assim que se sente vivo: esfriando a barriga e aquecendo o coração. Nunca o contrário – o contrário te mata aos poucos.

Ele acelerou o carro e rapidamente, eu comecei entender o porquê do frio na barriga. As curvas e depois o morro bastante íngreme davam a sensação de estar numa montanha-russa. E foi então que ele disse: – Bem-vinda a minha montanha-russa!

Eu já havia dito a ele um “Bem-vindo a minha montanha-russa” há muito tempo.

No primeiro beijo, no primeiro aviso: “Se você quiser ficar, fique, mas eu sou problema”, nos “talvez” que eu insistia em vestir antes de sair de casa, na minha risada louca, nos meus assuntos bagunçados, nos meus medos, no meu cheiro e em tudo que morava em mim.

Não deu tempo de eu responder nada, o carro começou a descer muito rápido, eu apartei a perna dele, arregalei os olhos e engasguei um grito. Ele começou a rir, até que o carro chegou lá embaixo e eu pude respirar aliviada.

– O que você achou? – perguntou ele.

– Vamos de novo? – gritei como uma criança de cinco anos.

De altos a baixos a gente ia rapidamente. Ele costumava ser responsável pelos altos e eu pelos baixos, não fico feliz em admitir, mas era assim. Só que apesar de qualquer coisa, sabíamos como ser feliz juntos. Eu completamente louca, ele totalmente aberto às minhas loucuras. Nós éramos fogo, pena que fogo depois que aquece, queima.

Numa madrugada de verão, estávamos indo embora da praia, alguns meses após a montanha-russa. Ele desviou o caminho, eu confiava nele o bastante para não me preocupar com a mudança de rota. Apenas perguntei curiosa: – Aonde vamos?

– Quero te mostrar um lugar.

A gente sabia se divertir de um jeito que poucos casais sabem. Não tinha rotina, final de semana tedioso, festa chata, domingo ruim. Juntos, segunda-feira virava sábado, agosto fazia calor e filme de drama causava risada. Gostávamos de sair com os nossos amigos, mas não precisávamos de mais ninguém para nos divertir. Nunca chegamos a triste afirmação: “Ah! só nós dois vai ser chato.”

Pequena nota para ele:

Você me acostumou mal, “baby”, depois de você, fiquei mais exigente.

Chegamos a uma lagoa, aquela era, de longe, a mais bonita que eu conhecera. Descemos do carro, pés descalços, mãos livres, corremos pelas árvores, até a beira da lagoa. O lugar era lindamente verde, cheirava a mato, a água e a amor de verão. Eu voltei para baixo de uma árvore, ele me acompanhou e me beijou.

– O que você está fazendo? – ele perguntou.

– Isso mesmo que você está imaginando.

– Não! Você está falando sério?

– Sim! – respondi já sem roupa, correndo para lagoa.

Ele não pensou duas vezes, largou as suas roupas junto das minhas, escondeu a chave do carro e mergulhou primeiro. Ele era assim, topava minhas loucuras tão sem medo, que as experimentava até antes de mim. Já havia, também, mergulhado na gente primeiro, ele não se importava em dar os primeiros passos.

Naquele dia eu desejei ficar com ele para sempre. Naquele dia eu tive a certeza, que se quiséssemos, seríamos felizes através do tempo. Mas, era ali, que começávamos a nos queimar.

Nem eu, nem ele, sabemos dizer o que deu errado: a barriga aqueceu e o coração esfriou…

Nova nota para ele:

Obrigada por me ensinar a amar, com o seu amor; desculpe-me por não ter o poder de decidir a quem amar.

Ele me ensinou a ser a minha melhor versão. Arrancou-me as mágoas de amores passados e os medos de amores futuros… Me libertou de mim.

Todos sabem que se fosse da natureza humana decidir a quem amar, nós nos amaríamos hoje. Na ausência de um possível amor romântico, ficamos com o amor humano e optamos pela amizade.

Hoje ele me acode na madrugada, nas tardes de domingo, nas manhãs de segunda-feira, com mensagens no celular. Tem a maior paciência do mundo e me ouve contar por horas as babaquices dos novos caras que eu tento me relacionar. E eu que não sou de ouvir conselhos, o dele, sempre tento.

Última nota para ele:

Que você tenha todo o amor que eu não fui capaz de te dar.

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Apaixonada por astrologia. Áries com ascendente em Áries, regida por Marte. Nascida numa terça-feira, que também são regidas por ele, o Deus da guerra. Filha do planeta vermelho e amante de Netuno. Moça laranja que ama azul. Uma louca que entende que a loucura é também uma forma doce de viver. Impulsiva, bagunçada, perdida; totalmente na contramão. Fora do eixo. Escrevo para me ver de frente.