O poder da palavra (e não é auto ajuda)

Quando éramos bebês nossos desejos eram compreendidos e atendidos com a ausência da palavra. O choro expressava a fome, a dor, o incômodo com a temperatura ou com a fralda suja e bastava que os grunhidos fininhos fossem ouvidos, a mágica acontecia: mamadeira servida, alívio farmacêutico, a troca de roupa feita. Não era preciso falar pra que aquele ser que nos amava e servia atendesse nossos desejos. Talvez, esse instinto primário nos mantenha em silêncio.

Lembro de uma vez que visitei uma fonte do amor, dessas onde a gente prende um cadeado, sabe? Eu estava acompanhada de um namoradinho na época, e me recusei a colocar um cadeado lá. Queria que a fonte me colocasse presa a um amor verdadeiro que eu sabia, não era aquela paixão. Alguns meses depois o romance acabou provando que fiz certo ao economizar no cadeado.

Anos depois, voltei naquela cidade com meu namorado

Com meu namorado

Este que é o amor da minha vida, dono da porra toda e pedi pra gente colocar um cadeado lá. Meus olhinhos brilhando inocentes na busca de uma loja que vendesse cadeados foram barrados pela objeção do namorado: pra ele, não fazia sentido gastar com aquilo.

Eu, como mulher adulta e madura que sou, fechei a cara, sai do seu abraço e comecei a chorar. Não um choro alto, estridente, explicativo. Um choro magoado, derrotado, ferido, acompanhado de um “Não foi nada”.

Eu não falei pra ele que aquele ato simbólico era importante pra mim. Que ele havia sido escolhido e que eu esperava por aquele cadeado há muitos anos. Eu emburrei, feito uma criança mimada e imbecil, contrariada, e neguei a ele o direito de saber o quanto aquilo tinha valor.

Uma amiga sonha ser pedida em casamento. Ela queria que fosse um jantar romântico, numa viagem bonita. Toda vez que volta pra casa depois de viajar, chora. O pedido não aconteceu. Seu petit gateau servido na Torre Eifel não veio recheado por um anel de brilhantes, nem a taça de licor bebida em Portugal veio enfeitada com alianças.

A frustração é constante. O marido, coitado, acha que morar junto já é casamento. Vendo a depressão pós viagem da amada, compra mais uma passagem pra um lugar incrível, e ela vai de novo idealizar “Será que é dessa vez”. De novo, não é.

Mas até quando?

Eu fico imaginando até quando ficaremos presos nesse universo infantil e maternal que nos atende sem o uso da palavra. Quantas discussões a gente evitou dizendo que não era nada, sendo que pra gente era muita coisa. Quantas vezes a gente foi dormir com uma verdade entalada na garganta por ter vergonha daquela, que era a nossa verdade.

É preciso romper esse ciclo. Abrir a boca. Falar. É preciso desenhar pro nosso colega de trabalho que a caneca em cima da mesa nos incomoda, antes que uma pequena guerra se trave entre pessoas que precisam estar do mesmo lado. É preciso conversar porque o que nos parece muito claro, as vezes não é claro para o outro.

Eu aprendi que se faz uma bolinha na minha garganta, eu preciso falar. Minha perna tremeu ao pensar sobre aquilo? Eu preciso falar.

De vez em quando não precisa. Vez ou outra os olhares são plenos. Mas, brincar de adivinhar com quem convivemos é cruel pra todo mundo. É cruel contigo e com os outros esperar o milagre que as mães fazem ao desvendar o que sentem os bebês. É um processo de tentativa e erro exaustivo, pelo qual, nós adultos e maduros, não precisamos fazer o outro passar.

Ninguém vai tirar você do berço e te embalar se você ficar choramingando. E eu aposto que nem é isso que você quer. ;)

Originalmente Publicado em: deiseduarte.com.br

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Deise Duarte é uma carente emocional em recuperação que nasceu nos anos 80 e cresceu com os olhos grudados na Coleção Vagalume. É formada em Processos Gerenciais, atua na área comercial. É apaixonada pela vida, por sua playlist e acredita nas pessoas. E escritora do livro "Do quinto andar".