Relato de uma pessoa ansiosa

Nosso primeiro encontro foi no início de 2013. Era um domingo à noite, umas 21h, no sofá de casa, enquanto assistia tv. Desde então, a vida nunca mais foi a mesma. A primeira crise de pânico é como rasgar a própria carne, morrer e nascer novamente.

Num impulso, o coração dispara, o ar não entra, a cabeça desconecta da realidade, braços e pernas formigam e claro, a gente tem absoluta certeza de que vai morrer dentro de 2 minutos e não vai dar tempo de se despedir de quem a gente ama. (Esse exagero eu nunca consegui distinguir se é efeito da ansiedade ou coisa minha mesmo kkk).

Segurei a mão do meu noivo e implorei a ele pra não me deixar morrer, enquanto me dirigia para a parte externa da casa, pois não estava conseguindo respirar e nem controlar os batimentos cardíacos. Ele tomou um baita susto, obviamente, pois a primeira coisa que me veio à cabeça era que estava infartando.

Fui para o pronto atendimento do hospital e depois dos exames preliminares, que incluem um ecocardiograma, o diagnóstico: crise de pânico. Tomei um comprimido por ordem médica, lá mesmo, e meu coração foi voltando ao ritmo normal. Quer dizer, o coração de uma pessoa que sofre cronicamente de ansiedade nunca mais bate num ritmo normal.

O diagnóstico e o encaminhamento para tratamento com psiquiatra foram aterrorizantes

Não fui, obviamente. O sentimento que starta uma crise de pânico, em geral é o medo de algo ou alguém. No meu caso, eu sabia exatamente do que se tratava. Era como se durante todo o tempo que antecedeu à primeira crise, eu soubesse que algum dia alguma coisa iria mudar pra sempre. Acho que no fundo, a gente sempre sabe dessas coisas.

Fui pra casa e dormi. No outro dia só trabalhei no período da tarde, mas a vontade era de ficar em casa, sozinha e quietinha. A ressaca de uma pós-crise, é devastadora. A carga de adrenalina que o corpo libera durante a crise é altíssima e isso provoca uma série de reações.

Depois disso, vem o medo de ter outra crise. O medo de ter medo. O medo de ficar ansiosa. MEDO. Ele passa a controlar a nossa vida e partir daí é que vem a parte mais difícil.

Porque é parte da cura o desejo de ser curado. (mas tenta explicar isso pra alguém que está enfrentando a ansiedade/pânico, pra ver?). E não tem mais hora pra se sentir mal novamente. Pode ser em qualquer hora, em qualquer lugar. E é exatamente isso que torna a caminhada da cura tão cheia de quedas e desespero.

Uma crise de pânico é capaz de mudar a vida de uma pessoa pra sempre

E se você me perguntar se muda para melhor ou para pior, a resposta é clichê, mas real: depende do modo como você reage diante do que a vida faz com você. Não tem segredo. No fundo, é isso.

O processo de cura exige um esforço quase desumano. Digo isso porque é muito difícil controlar a mente e é na mente que a cura se inicia. Não importa qual tratamento se escolha para conseguir isso, o que importa mesmo, é o modo como se encara esse momento.

Quanto mais em posição de vítima, mais difícil o caminho e mais difícil o tratamento. É óbvio que perguntas como: -“Mas por que isso foi acontecer justo comigo?”, rodeiam os nossos já tão exauridos pensamentos. Mesmo que sem forças pra dar os primeiros passos, é importante sempre ter consciência de duas coisas muito importantes:

1- Nada acontece por acaso;
2- Todo acontecimento da nossa vida vem para nos ensinar algo.

Com o pânico não é diferente. Simples assim.

Parece fácil né? Mas não é. É uma caminhada pedregosa, solitária e extenuante, muitas vezes. É conhecer os próprios limites, é olhar para o precipício, enxergar nele toda a dor que a alma é capaz de produzir. Mas se eu fosse dar uma única dica para quem está passando por isso nesse momento, é: – Torne a sua dor consciente. Olhe para você. Conheça e, principalmente, respeite a sua dor.

O mundo é bastante cruel, às vezes

Todos temos direito de chegar ao limite e quase não aguentar. Mas temos obrigação de tentar mudar isso. Jogar-se e desistir NUNCA pode ser opção. Lembre-se que a vida é difícil pra todo mundo, mesmo que não pareça. A gente não está no lugar da outra pessoa e não sabemos quais são as dores que ela esconde ao sorrir.

Outro sintoma bastante comum em quem já teve ou tem crises com frequência, é a sensação de estar perdendo o controle de seus pensamentos. Muitas vezes, a gente está conversando com alguém e, do nada, a voz da pessoa vai sumindo, vai se distanciando e não conseguimos mais entender o que ela diz. E quem nunca sentiu isso não é capaz de imaginar o tamanho do desespero.

Desespero… Ta ai outra palavra que a gente passa a conhecer bem o significado. Qualquer coisa é motivo pra desespero. Lugar fechado, ligação da mãe da gente tarde da noite, comidas, remédios. Tudo pode inesperadamente, provocar medo/desespero. Uma dor em alguma parte do corpo é sempre doença terminal (kkkkk). -Dica de ouro: JAMAIS pesquisem sintomas de doença no google. JA-MA-IS. De nada.

A vida nunca mais será a mesma depois da primeira crise

(Com o tempo descobrimos que isso é uma grande sorte)

Aprender a desacelerar, a valorizar as boas relações, priorizar as pessoas que nos proporcionam bons momentos, a só deixar ficar quem nos respeita, quem respeita a nossa dor… Livrem-se COM URGÊNCIA, dos relacionamentos abusivos, danosos.

Respeitar a própria dor não significa toma-la como de estimação. Não. Significa encará-la com determinação mas sempre ciente do quão difícil é o caminho, porém, ainda assim, nunca deixar de caminhar.

Seja lá qual for o método escolhido para buscar a cura, é importante lembrar que o pânico é uma experiência bastante particular e o que funciona para um, pode não funcionar para outro. Portanto, busque ajuda SIM, com profissionais especializados e com boas referências. Sim, eu sei que iniciar um tratamento é motivo para sentir medo e talvez até provocar uma nova crise, mas é preciso lidar com isso.

Entenda que por mais difícil que pareça tudo isso e que de fato é, a cura É POSSÍVEL

Mas também é oportuno destacar que para que isso aconteça, a gente precisa mudar de modo irreversível os comportamentos que nos levaram para isso. E isso inclui cuidar mais da gente mesmo, cobrar-se menos, relaxar mais. A vida é para ser sentida e não só para nos deixar preocupados com o que vai acontecer na próxima semana, na quarta-feira, às 17:55 PM (ansioso pensa em todos os detalhes, hehe).

Ao invés de tentar entender tudo, viva. Ao invés de querer controlar tudo, sinta.

Para sempre e em todos os dias, a gente sente muito. Portanto conviva com pessoas que saibam compreender que pra nós, os ansiosos, um risco nem sempre quer dizer Francisco. Na nossa mente, vai dizer: “Olá, Francisco, tudo bem? Você vem sempre aqui?” E escrevam isso nunca lugar visível: “Isso também passa!”.

Observações importantes:

1 – Síndrome do Pânico e Transtorno de Ansiedade Generalizada são coisas diferentes. No texto, misturei os termos pois à época vivenciei tanto uma quanto a outra

2 – Sempre que me refiro à cura, tenho consciência de que esse é um processo bastante particular e nada pode ser generalizado. O texto é sobre a minha experiência com a SP e TAG . E quando falo em cura, quero dizer: ter qualidade de vida novamente. Depois da primeira crise, nunca mais estamos absolutamente imunes a novas crises. Ou seja, mesmo que ocorram crises esporádicas, é possível ter uma vida “normal”.

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