Solidariedade, o mundo respira!

Semana difícil, para não dizer, anos difíceis. Existe um paralelo entre as tragédias diárias e as catástrofes de proporções épicas que nos abalam de tempo em tempo. A realidade, o dia-a-dia nos afeta, mas é diferente, a solidariedade é diferente.

Não há como comparar as mortes do atentado a Paris, do rompimento da barragem de Mariana, ou até mesmo do tão presente avião da Chapecoense, com mortes que são tão recorrentes no nosso cotidiano que já fazem parte do nosso universo.

Ou você vai me dizer que a guerra civil em que vivemos, a carnificina de nossas estradas, ou o péssimo atendimento em nossos hospitais não matam mais que uma guerra? Há dados e estatísticas que mostram que sim.

Mas o que nos choca?

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É o jeito trágico que essas pessoas morrem? É a morte em si? Ou somos carregados por uma comoção coletiva e isso de algum modo nos afeta? Creio eu que tudo isso e mais um pouco. Mas por que a morte no transito não nos afeta desse modo? Ou o menino baleado na favela?

A resposta é simples e cruel. Aquilo já é tão comum que faz parte de nós, do nosso cotidiano e de algum modo, não está próximo. Sim, nós somos afetados por mortes próximas, pelo contrário, não. “Mas como? Eu chorei a semana toda com o acidente da Chapecoense, com a tragédia de Mariana e com os atentados em Paris!”

Você, eu e todo mundo. É amplamente diferente quando falamos em tragédias dessas proporções. Elas não matam mais que o cotidiano violento que estamos acostumados, mas em compensação, elas se destacam como se fossem picos em uma linha reta.

Quando olhamos para a história

Quando olharmos para trás, olharmos para o ano em que estamos, não vamos lembrar das 50 mil mortes causadas pelo transito, nem pelos 200 mil feridos nesse tipo de acidente. Mas vamos lembrar das tragédias, das mortes dos famosos, e de tantas outras coisas que se destacam em meio a carnificina diária.

E como eu sei disso? Porque é assim que tratamos a história. Olhamos para trás e lembramos de Ayrton, dos Mamonas Assassinas, de grandes cantores como Freddie Mercury, Cazuza, Renato Russo, mas quem lembra do José, da Maria e de tantos outros que morreram, talvez, de forma até mais trágica, mas no anonimato.

A AIDS, o câncer e tantas outras doenças são tratadas como tragédia em famosos. Mas no amigo do vizinho, no conhecido, são normais. Elas acontecem o tempo todo e a única certeza que temos é a morte. Essas e tantas outras são coisas que falamos para explicar a falta de sensibilidade.

Somos menos humanos por causa disso?

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Não! Ninguém tem o direito de apontar para o que você deve sentir, para o que deve te afetar. Em outra ótica, há sim a necessidade de você sentir a perda. Imagino eu que essas mortes mais trágicas, além da forma diferenciada em que acontecem, há também a influência da mídia que nos deixam próximos as vítimas. Você de algum modo, passa a conhece-la, sente-se parte da família e claro, da tragédia. E quanto mais próximo você se sentir, mais dor haverá.

Mas a questão que eu quero levantar é que de algum modo, é injusto sentirmos dor por alguns e por outros não, mas também é injusto sentirmos todas as dores do mundo. Pois carregar apenas as nossas já é bem complicado. O mundo precisa que nós sentimos essas dores para que possamos fazer algo para melhora-lo.

Como sentir?

Acho que a pergunta não é essa, mas a resposta pode ser bem próxima a isso: solidariedade! Você não precisa sentir o que o outro está sentindo para se comover com a dor dele. Inclusive, você não precisa que isso aconteça com você para querer mudar o mundo.

A dor do outro deviria ser o bastante para pensarmos no coletivo, no quanto aquilo é ruim para todos e não apenas para nós. Se colocar no lugar do outro e ao mesmo tempo, não. Porque a dor do outro já deveria bastar, mas não basta. Precisamos de algo mais próximo, ou até mesmo que aconteça conosco.

Enquanto a rua do vizinho está esburacada, tudo bem, mas quando é a minha, cobro por mudança e fico bravo se o resto da população não embarcar na mesma indignação. Mas quando era apenas o buraco na rua do vizinho, eu me mobilizei? Dificilmente, porque somos assim, ou estamos assim. Nossos olhos estão apontados para o mesmo lugar. Nossos próprios umbigos!

Mas nunca, de forma alguma, confunda solidariedade com caridade. Solidariedade é se colocar no mesmo patamar do outro, do igual, é sentir a mesma dor. Apesar de que a palavra caridade não significar exatamente o contexto contemporâneo da qual é aplicada. Prestar caridade é como se você colocasse o individuo em um patamar não apenas de maior necessidade, mas até mesmo que ele seja inferior a você.

E o que menos precisamos para os dias de hoje, são pessoas que estão fazendo “caridade” e não estão apenas sendo solidários com os seus iguais. Caridade, filantropia, são termos que alguns inventaram apenas para se sentirem “bonzinhos”. Ser solidário não é ser “bonzinho”, é ser mais humano!

Quando o ser humano se mostra humano de verdade

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Em compensação, em momentos como esse, de grandes e tristes tragédias o ser humano se mobiliza em conjunto. A dor se espalha e como uma corrente, juntamos a esperança, as boas energias, pensamentos positivos e claro, todo nosso trabalho, ajuda, empenho e mobilização, para fazermos o contrário do que estamos acostumados.

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São nesses momentos que entendemos como nossa espécie sobreviveu até aqui e ao mesmo tempo, ficamos tristes em saber que poderia ser assim, todos os dias. Imagina as pessoas acordando e pensando: o que estou fazendo pelo mundo? O que estou fazendo para as futuras gerações?

Podemos sim ser mais humano, assim como o mundo foi essa semana. Quando deixou de lado clubismos, fanatismo e todas as diferenças para se abraçar, para chorar juntos. Para lamentar a trágica forma que aqueles homens partiram desse mundo. E nessas horas não importa cor, credo, classe social, todos sentem. Todos sentem a mesma dor!

Mas por que não usamos esse exemplo para seguir daqui para frente de modo diferente? O ser humano mostra que é possível, mas ao mesmo tempo, de algum modo, mostra que tudo isso não passou de hipocrisia. Porque daqui uma semana, um mês, creio eu, haverão pessoas se matando por causa de um objetivo fútil. A verdade é que o mundo não precisa de mais hipocrisia, precisa de abraços, de entender o próximo, de entender as diferenças que todos temos.

Sei que isso ás vezes parece utópico, mas o ser humano me mostra que isso é possível. O mundo respira quando isso acontece. Quando estamos mais envolvidos no bem geral do que nos nossos próprios benefícios. Mas como eu disse, você não é obrigado a sentir. Mas acho que você se deve cobrar para agir. E o que está faltando para fazermos um mundo melhor? Mais solidariedade, mais entrega e claro, mais humanidade!

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