A vida pede: moça, tenha um pouco mais de paciência

Ouça: Paciência – Lenine

Setembro chegou e ela está insone. Sentada no piso da cozinha, porque tem essa mania desde pequena. No rádio Lenine está lhe implorando por “um pouco mais de paciência”. Ouve palavra por palavra, absorvendo cada nota.

Ultimamente está tentando fazer hora e ir na valsa, como ele diz, logo ela que sempre exigiu tudo pra ontem. Agora, enquanto sente o frio dos azulejos, na parte do corpo onde a vida chutou mais forte, conclui: não é que tio Lenine tem razão?

O vento entra sorrateiro por uma fresta de janela aberta, assovia e agita uma sacola de mercado. Ela observa e repousa a cabeça pensando no quanto queria ser aquela sacola, se deixando acarinhar, dançando, entregue ao vento. Paciência! Ele continua falando. Cara, paciência é foda, ela pensa. Mas está tentando. Tentando mesmo.

Sem pensar, ignorando as regras de silêncio do condomínio, aumenta o volume e arranca os fones, deixando a canção chicotear as paredes de alvenaria barata. Com os pés descalços dança pela cozinha, sentindo a alma invadida por cada palavra do poeta, permitindo-se embalar. Canta alto o refrão e passeia pela brancura do assoalho frio.

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Algumas lágrimas até escorrem, sem muita pressa e ela nem se incomoda em secar. Deixa a dor ser exorcizada do peito e só termina a dança junto com o ultimo acorde. O silencio invade o espaço curto entre a copa e a porta da sala.

Recai exausta, sobre os calcanhares e ri enquanto lágrimas rolam, amargando a boca. É quinta a noite, madrugada na verdade, ela provavelmente acordou a mãe que dormia no outro quarto. Mas dançar é o que a acalma, é seu escapismo momentâneo que a pacífica e alivia. Vale o risco da bronca.

“Paciência”, ela repete pra si. Deixa que o futuro se resolve sozinho. Deu de brigar com monstros imaginários. Apenas relaxe, deixe ir e tenha paciência.

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