Um mal chamado crush

Tudo começou numa curtida displicente numa das poucas fotos do perfil. Só uma curtida. A foto era bonita, eu gostei, pronto.

Alimentei um dia qualquer a possibilidade de ficar com ela. Só não tive muita paciência em estratégias, nem dinheiro para um rolê impressionante.

Mas, inesperadamente, dois dias depois, sobe a mensagem de “oi”. Ainda usava desktop, essa história tem tempo! Não deixei de ser cordial e respondi o mesmo oi com um “Olá”. Foi um olá seco, para não transpassar a ansiedade de um retorno daquela mulher.

Ela me respondeu com “Tudo bem?”, a respondi com “Tudo sim e com você?”. Ela me retornou com um “Tudo bem sim, você sumiu”. Pronto, desatinou a conversa.

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Falávamos sobre tudo e a qualquer momento

Falávamos sobre tudo e a qualquer momento, a não ser que o cansaço não deixasse. Ela me falava do dia inteiro quando estávamos no Messenger. E começou a me atualizar em tempo real quando Deus iluminou a cabeça do criador do WhatsApp.

Não que eu não fizesse a mesma coisa, acho que fazia mais do que ela. Mas o foco aqui é o quanto aquela pequena morena me encantava com gestos inocentes. Aqueles que a cabeça machista acredita que é uma chance que as mulheres dão para ficar com elas. Lêdo e Ivo engano…

Acontece que nessa reflexão que fiz com vocês a conversa entre nós continuava e se apimentava. Ela falou que não tem tesão em mulheres. Que não pensava no amor ou suas adjacências. E eu só lá, caindo perdidamente de amores por ela.

Um dia, recitei um poema bobo e que gosto muito via áudio. “Teu Riso”, de Neruda, esperando um simples elogio, mas como ia saber que ela já conhecia o santo poema e que o amava?

Ela mandou corações, que lindo, que incrível. Achava que só eu conhecia esse poema. Você é incrível, muito lindo, sério de verdade – PERCEBAM AÍ, CARXS, QUE PELA AUSÊNCIA DE FALAS MINHAS QUE FOI AQUI QUE COMECEI A CHAMA-LA DE CRUSH.

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Não tinha ideia se ela queria algo a mais comigo

Não tinha ideia se ela queria algo a mais comigo, mas eu sim queria algo a mais com ela. Então resolvi partir para o ataque:

– Vamos sair?
– Vamos sim.
– Para onde?
– Para onde você quiser.

Achei que dali poderia sair um belo amor

Já imaginava o pegar na mão de leve, os risos, a pergunta crucial, o beij… “Gab, não posso ir”. Ok, não estava assim tão desesperado, na verdade, quando se tem um(a) crush na sua vida nada é desesperador, tudo é lindo, ela é linda, “A gente marca para depois”.

Continuamos conversando, desta vez o flerte era intenso, ou quase intenso. Porque nunca que chegava até o ápice de “se bejá”. Mas papo vem, papo vai, resolvemos marcar de sair de novo.

Esperei uma mensagem no dia para confirmar e ela só chegou três dias depois. Acompanhada de um pedido de desculpas e dizendo que não pode ir.

A Ironia queria falar mais alto, mas me contive, porque toda palavra com crush é cuidadosa. E deixei aquilo passar, fui me fazendo de besta.

Até que houve um inusitado convite da morena. – Olha que foi bem inusitado mesmo, porque em toda conversa com crush, o puxador de assuntos é sempre a parte trouxa da história – E não pensei duas vezes: “Siiiiiiim”.

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Novamente, aquela palpitação batia no peito

Novamente, aquela palpitação batia no peito como o amor batia na aorta de Drummond. E desta vez me armei com Vinícius, o próprio Drummond e mais um pouco de Neruda para garantir. Quando estava treinando as pausas de ar em “Das vantagens de ser bobo”:

– Gab, não vai dar.
– Pq?
– Lembrei que tinha um outro evento no dia.

Neste momento a conversa entre parênteses define tudo que queria dizer. Como:

“Olha, você não cansa de fazer as pessoas de trouxas não? Já tá maior cota que tô na tua e você ai me fazendo de palhaço. Eu não entendo isso meu. Já que quer ficar me enrolando assim é melhor não falar mais comigo, porque é ridículo isso!”. Mas o que na verdade foi dito): -Tudo bem.

Naquele momento pensei que a melhor tática seria o gelo, o desinteresse. A maior ato de covardia nos relacionamentos de hoje em dia.

Não que ele não funcione como nós esperamos. O desinteresse é uma prática abominável que só é usada pelos desesperados – entendam meu ponto de vista.

O crush é o desinteresse em pessoa!

Mas gente, o(a) crush, ah o(a) crush, é o desinteresse em pessoa. Não quer falar com ele? Vai lá retardado, não fala, ele(a) não está nem ai para você.

O que você faria nesse momento?

Esqueceria aquela pessoa, se renovaria, se prepararia para a vida que você perdeu e vai se enfiar em outra aventura? Eu tive uma atitude sensata:

– Oi sumida, rs.

A conversa não andou do mesmo jeito. A morena em questão não agia como crush. Mas parece que ela tinha entendido a influência dela sobre mim. E agiu perfeitamente como a melhor (que é a pior) crush que alguém pode ser.

Respostas curtas, indecisão e “tanto faz” eram as expressões prevalecentes. Eu não aguentei. Fiz aquela pergunta que não se deve fazer a nenhuma pessoa que se esteja afim: “O que está acontecendo?”. Não façam essa pergunta, sério, vocês vão se arrepender. Como eu me arrependi:

[Áudio de cinco minutos aqui]

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Foram os cinco minutos mais dolorosos da minha vida. Porque pior que ter uma crush, é ter uma crush que desabafa contigo. É saber que não sairá da friendzone, é ter a certeza da sua decepção e loucura.

– Percebam até aqui, carxs, o quão avassalador pode ser o sentimento para si mesmo –

Não foi culpa dela eu ter me apaixonado, porque fui eu que me apaixonei. O erro está em santificar o objeto de desejo. E adorar aquilo como se fosse a única coisa importante na vida. Ou tornar aquilo algo que te quebre, numa tradução livre de crush.

Quando se está apaixonado assim, você para no tempo

Quando se está apaixonado assim, você para no tempo. Não vê que as coisas andam ao teu redor. E não vê que há infinitas possibilidades de encontros e desencontros na tua vida.

Não há amor aí, não há atração – há sim a obsessão. Tão desastrosa quanto uma desilusão é capaz de ser. Ridículo não era a forma que a crush me tratava, o ridículo era como eu tratava aquela mulher. Parem com essa baboseira de ter um crush, não é lindo, é doentio.

Desculpem o transtorno, é que precisava falar da Crush.

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"É difícil se descrever quando nem você se conhece direito. Mas se quer uma descrição física, vá ao Facebook; se quer saber o que faço, procure "Engenharia Civil" no Google; se quer saber do que gosto, coma uma comida (qualquer comida!) e escute uma música(qualquer música!). Pensando bem, vou me descobrindo por meio do que escrevo e acho que vocês terão ideia do que(m) sou eu. Louco isso? Amados, loucura é querer ser normal!"