Eu quero de volta o verdadeiro Natal

Amanhã vou sentir saudades dos natais da minha infância!

Quando eu esperava semanas à fio, ansiosa pelos presentes, que nem sempre chegavam de acordo com o meu pedido, mas que me alegravam por meses.

Quando a mãe montava aquela árvore, sujando todo o piso da casa com o barro das raíze.

A enchia de bolinhas recicladas e trocava as lâmpadas do pisca-pisca para conseguir que funcionasse.

Quando a ceia era simples, mas saborosa e com um aroma tão agradável, que fazia salivar a boca de crianças e adultos.

Nessa época ninguém encrencava com a polêmica da uva-passa, acredite.

Eu queria poder voltar para aquelas noites de Natal

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Eu queria poder voltar para aquelas noites quentes em que ficava com meus irmãos e primos até tarde na rua.

Brincávamos de esconder, de congelar, de pega-pega e uma infinidade de outros jogos que, de uma forma ou de outra, sempre terminavam em joelho ralado, roupa suja e castigo para todos por conta da bagunça.

Víamos “milagre na rua 34”, “esqueceram de mim”, com todas as suas continuações e achávamos os filmes maravilhosos, dignos de Oscar.

Comprávamos cinco picolés por um real e ficávamos com a camiseta manchada de uva.

Saudades de fazer amigo secreto na escola e ganhar uma Barbie de plástico, ou um joguinho de varetas e ficar cobiçando o presente do coleguinha.

De fazer cartinha para a tia, a professora, o pai a mãe e enlouquecer todo mundo com um monte de presentes cheios de cola, papel e gliter.

Que saudade desses Natais

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Que saudade desses natais!

Da falta de roteiro, da leveza das noites de verão, do perfume das flores do quintal, de correr para a praia no dia 25, independente de possuir ou não protetor na bolsa.

De ter as bochechas esmagadas por todo tipo de parente, os quais não questionavam minha carreira, vida amorosa e muito menos minhas ideologias políticas.

Afinal eu era uma pirralha, meu lugar era no pátio e não na cozinha ouvindo conversa de adulto.

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Amanhã o natal não vai ter para mim a mesma magia, infelizmente, as coisas mudaram desde aquela época.

Eu não vou sentir aquele “clima” no ar, nem perseguir papais-noéis de loja, em cima de uma bicicleta Caloi.

Tampouco vou ganhar balas e doces enquanto pedalo firmemente com meu all star de botinha.

Acho que ninguém vai cantar aqueles hinos e poemas que falavam de Jesus e de Belém. Sentados numa roda bonita de violão.

Mas garanto que as ruas vão estar cheias de compradores de última hora. Todos tentando reencontrar aquela alegria perdida da infância.

Aquela coisa da surpresa, do brilho das luzes da praça refletindo no olho, do sorvete de casquinha escorrendo pela mão e da felicidade de não acordar cedo para a aula no dia seguinte.

A vida adulta mata um pouco a magia do Natal

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Talvez seja isso, é possível que a vida adulta mate um pouco da famosa magia natalina. E que, mesmo sem notar, nos entreguemos a plasticidade desses dias.

Queremos coisas palpáveis na maior parte do tempo e esquecemos que o essencial não pode ser tocado. Porque reside dentro, e tem o formato imaterial dos sentimentos.

A gente cresceu e nem notou que as datas festivas passaram a ser moldadas pelo dinheiro e pelas obrigações sociais.

O que é uma pena, já que meus melhores natais eram livres desses paradigmas bobos. E é para esses que gostaria de poder voltar.

Amanhã, em muitas casas, as famílias estarão incompletas e um oceano inteiro estará entre pessoas que se amam, o que vai doer, muito.

Mas, ainda assim, vão dar e receber presentes feitos em seis ou mais vezes no cartão.

E, provavelmente, eles não vão surpreender, vão estar exatamente de acordo com o que se escolheu na vitrine de um shopping.

Nesse momento que mais vou sentir saudades. De dormir exausta, em um colchão no meio da sala, dividido com mais crianças, embaixo da árvore e cercada de alegria.

Um sono calmo e pacífico, com um sorriso inocente no rosto, de alguém esperançoso que a casa da família vai ser para sempre sua maior e mais bonita fronteira.

Que seus irmãos estarão sempre ali, ao alcance do seu beliscão. Que os abraços serão distribuídos de graça todo o tempo e que o futuro será tão maravilhoso.

Que todo dia será como uma noite de festa e é para essa noite que eu gostaria de voltar. Para os natais simples, que parecem ter sido há séculos atrás, mas ainda carrego vivo na lembrança.

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